Relato da nossa experiência em levar uma criança de 7 anos e meio para passeio e viagem focada em fotografia de natureza. Por Claudia Komesu.

 

  • Nossas experiências na Reserva Guainumbi em maio de 2011, e na África do Sul em outubro de 2011.
  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos de fauna e flora: Daniel Mendes Andrei (na época, com 7 anos e meio), usando equipamento de adulto, com a câmera regulada pelo Cris. Mas o mérito do enquadramento e do timing do registro dos momentos é todo dele.

Eu e meu marido gostamos muito de fotografia de natureza. Eu sou louca por aves, o Cris gosta de tirar fotos bonitas, principalmente de paisagem, e não se importa muito com raridade de espécies. Uma das nossas férias favoritas é nos parques nacionais da África do Sul.

O Cris tem um filhinho de 8 anos, o querido Daniel. Desde que ele tinha uns 4 anos já demonstrava talento para a fotografia. O Dani tira fotos ótimas de pessoas e lugares. Como o pai, ele tem um grande senso de composição. Mas o Dani não adora tirar fotos. Ele gosta de correr, pular, jogar tênis, jogos de tabuleiro, Wii, ler, assistir a filmes, ou seja, uma criança normal e saudável.

Apesar de não ser sua atividade favorita, tendo o pai e a madrasta que tem, é claro que alguma hora ele teria que passar pela experiência de fazer passeios para fotografar natureza. Tivemos duas experiências com ele, uma em uma reserva de Mata Atlântica, a famosa Reserva Guainumbi, e a outra foram alguns dias na África do Sul. Vou contar como foi.

 

Reserva Guainumbi – 28 e 29 de maio de 2011

Atualização: infelizmente a RPPN Guainumbi não está mais aberta à visitação.

Fomos para a Reserva Guainumbi no fim de maio de 2011, o Dani tinha 7 anos e meio. Um passeio decidido um pouco em cima da hora. Era um final de semana em que o Edson Endrigo, o maior fotógrafo de aves brasileiras, estaria lá como guia. O Edson e o João Marcelo (o dono da Reserva) nos disseram que não haveria problema em levar o Daniel, então nós fomos.

Levamos o Wii, e o Cris foi com a disposição de ficar com o Daniel quando ele enjoasse do passeio nas trilhas. Nossa estimativa era de que uma criança nessa idade tem mais ou menos 1/3 ou menos do que a paciência de um adulto.

Chegamos tarde na sexta-feira e, apesar do horário, o Dani disse que gostaria de madrugar com a gente no sábado. O melhor horário para ver os bichos é ao amanhecer. Se ele não quisesse ir conosco poderia ficar dormindo, e quando acordasse pediria para a Léa (funcionária da Guainumbi) um café da manhã.

Toca o despertador, estava bem frio, o Daniel se vestiu meio dormindo, mas saímos do quarto. Tomamos café da manhã juntos com o Edson e os outros participantes do grupo, o Sérgio Coutinho e o Izaias Miranda, dois caras muito bacanas de São José dos Campos.

O Daniel é uma criança bem comportada, mais para o retraído entre os desconhecidos. O Edson deu atenção especial para ele. Saímos de carro e íamos parando na estrada quando o Edson ouvia algo, ou nos pontos que pareciam promissores. O Edson estava com o gravador profissional dele, e pedia para o Daniel ser o ajudante, segurando o microfone. O Sérgio e o Izaías foram muito bacanas e para eles tudo estava bom, mas a rigor, o Daniel “roubou” um pouco da atenção do Edson. Imagino que eles não sabiam que o Daniel ia (decidimos em cima da hora). Mas o certo seria ter perguntando antes, aos outros do grupo, se eles concordavam em ter uma criança junto.

Não foi um fim de semana fácil para aves. Chuva, neblina espessa. Chegamos a ir para as trilhas do Parque Estadual, mas começou a chover demais e tivemos que voltar. Na manhã seguinte, o dia também começou com muita neblina.

Apesar desses contratempos do clima, o Daniel se divertiu no passeio, falou para a mãe dele que foi um bom fim de semana. Mas é preciso dizer que tomamos alguns cuidados e houve fatores especiais:

  • Ele recebeu atenção o tempo todo, do Edson e principalmente do Cris.
  • Levamos uma câmera compacta para ele, mas foi frustrante. Na Mata Atlântica fechada ele não conseguia encontrar nada pelo visor digital, e quando achava, não estava gostando do resultado das fotos. Ele parou de fotografar.
  • Então pegamos a câmera DSLR backup, uma Nikon D200 com a lente 300 f4, mais o meu tripé. O Cris regulou a câmera e o tripé e aí sim ele passou a se interessar.
  • No tempo que ficamos na sede da Guainumbi, principalmente nos períodos de chuva mais pesada, o Daniel adorou os comedouros. Usou inclusive a câmera do Cris, uma Nikon D300 com uma lente 500 fixa.
  • Na trilha dentro do parque, quando ele disse que estava cansado, o Cris interrompeu o passeio e voltou com ele para a sede, foram jogar Fifa no Wii.
  • O Daniel se interessou não só pelas aves, mas também pelas flores, teias de aranha, insetos, gotículas de água. O João Marcelo me falou que com as outras crianças que já foram à Guainumbi foi assim também. Elas querem olhar tudo, não têm foco apenas em aves, e têm esse frescor e ausência de vícios na escolha do que fotografar.

Foi a primeira saída fotográfica do Dani, e ele tirou umas 900 fotos, mas graças a esses fatores especiais. Se ele estivesse só com uma compacta, acho que conseguiria no máximo ficar nos comedouros, e não por muito tempo. Uma criança mais fascinada pela natureza e menos por jogos talvez ficasse mais. O Geiser Trivelato tem um filhinho pequeno, de 5 anos, que é doido por bichos. Talvez o Ruan fotografasse tudo sem parar, mas é algo especial.

O Daniel nos falou que gostou do passeio, mas uns meses depois, quando perguntamos se eles gostaria de voltar para lá, ele disse que não queria. Ele tem muitas atividades durante a semana, e nos fins de semana com a gente está numa fase de querer ficar no apartamento, de pijama, sem compromissos com horários ou tarefas. Respeitamos a vontade dele, sem saber se ele será um futuro birdwatcher, mas com a certeza de que ele valoriza a natureza e os bichos.

 

África do Sul – Kruger – 9 a 13 de outubro de 2011

Na nossa primeira viagem à Africa do Sul, em 2006, um vizinho de chalé veio se apresentar. Seu nome era Bobby, e era a 25ª viagem dele ao Kruger. Morri de inveja, e estamos lentamente tentando alcançar o Bobby. Em 2011 foi nossa quinta viagem ao Kruger.

Já tínhamos prometido ao Daniel que quando ele completasse 8 anos ele iria com a gente pra África. No início de outubro ele ainda teria 7 anos, e a gente tinha pensado em levá-lo em 2012, mas os pais do Cris queriam ir juntos e não queriam esperar até 2012.

Planejamos a viagem com seis meses de antecedência, como costumamos fazer, e mesmo assim não conseguimos vaga nos campos mais populares. O Daniel não pode faltar da escola, então só tínhamos a agora extinta semana do saco-cheio de outubro. Decidimos ficar só no Kruger, em dois campos: Skukuza e Biyamiti.

Os pais do Cris tinham ido antes, para passear pelas vinícolas e pela Cidade do Cabo, e nos encontraram no aeroporto de Johanesburgo para pegarmos o voo para Nelspruit, uma cidade a 30km de uma das entradas do Kruger.

O que estragou um pouco o passeio foram as 2h30 entre entrar o parque e chegar para nossa primeira noite em Skukuza. Estragou porque vimos muitos bichos, bem de perto, de um jeito que não estamos acostumados a ver. A região sul do parque é famosa pela densidade alta de animais. Mas, como também significa alta densidade de gente, quando vamos sozinhos preferimos a região norte, onde há mais passarinhos e mais isolamento.

Entramos pela Numbi Gate, na região sul, e logo vimos elefantes na beira da estrada, girafas, vários rinocerontes. Houve um momento em que paramos para ver um elefante e de repente cruza um filhote de rinoceronte com a mãe, na frente do nosso carro. Eu não tinha nem palavras, o Cris e o Dani estavam olhando para outro lado, eu não consegui falar “vejam o rinoceronte filhote com a mãe”, só gaguejei “oquequeéisso??” Também vimos uma família de hienas jovens e filhotes deitadas no meio do asfalto, sob a linda luz do fim do dia.

Digo que isso estragou um pouco o passeio porque os outros dias não foram intensos em avistamentos emocionantes, se a ordem tivesse sido invertida seria um grande clímax. Mesmo assim, vimos a maioria dos famosos (exceto leopardo), e o Daniel tirou fotos incríveis, em alguns momentos melhores do que as nossas.

Adotamos um ritmo civil. Os portões abrem às 6h, mas nosso grupo saía depois das 8h. Em algumas manhãs madruguei e voltei antes das 8h30. Passeávamos das 8h30 até no máximo meio-dia, voltávamos ao chalé para fazer almoço, descansar, e sair depois das 15h30.

Durante os trajetos, muita conversa e risos. Estávamos em dois carros, o Daniel um dia ficava no nosso carro, no outro no carro dos pais do Cris. Levamos um Walk talk que foi mais divertido do que útil. O Daniel prestava bastante atenção, ainda mais elogiado por seus olhos de águia para ver os bichos, mas de vez em quando cansava e focava no DS.

Foram quatro dias inteiros no Kruger, mais a tarde em que chegamos ao parque. Na última manhã saímos direto em direção a Nelspruit, com quase nenhuma parada. Fomos juntos para Johanesburgo, e lá os pais do Cris e o Daniel pegaram o voo para São Paulo, eu e o Cris pegamos o voo para Upington, a cidade mais próxima do Kgalagadi.

Eles se divertiram no passeio, mas fazendo o balanço poderiam ter sido 3 dias no parque em vez de 4,5. Para crianças e adultos que não têm um interesse especial na observação de fauna, eles simplesmente enjoam de ver os bichos. Falei para o Daniel e para os pais do Cris que poderíamos voltar em 2013, a mãe do Cris disse “para quê, para ver mais zebra?”, acho que esse é o resumo de como as pessoas que não têm interesse especial por animais se sentem.

Talvez o Daniel queira voltar em 2013. Com quase 10 anos a viagem será bem diferente do que aos quase 8. E não precisamos ficar só no Kruger, talvez ele mesmo já pesquise sobre os lugares que ele gostaria de conhecer.

O único problema agora é a época para ir. Setembro – outubro são os melhores meses, principalmente para iniciantes. Mais fácil ver os animais, ainda não muito quente, e sem chuvas. Agora a escola dele aboliu a semana do saco-cheio de outubro. Provavelmente teria que ser nas férias de julho.

Os parques da África do Sul são um destino fabuloso para quem gosta de fotografia de natureza. Há esquemas caros, e há esquemas baratos, como nós fazemos. Quem quiser mais informações pode ver neste post.