Mulher passeando sozinha. Not all who wander are lost.

Estou acostumada a passear sozinha ou só eu e um guia, ou fazer pequenas viagens com outras pessoas mas sem o meu marido, o Cris. Apesar de estarmos em 2018, toda mulher sabe que há diferenças, riscos e preocupações.

Queria compartilhar minhas experiências e quem sabe incentivar mais mulheres a passearem mais, mesmo que elas não tenham companhia.

  • Texto: Claudia Komesu
  • Fotos: Cristian Andrei. O texto é sobre passarinhar sozinha ou com recém-conhecidos ou sem o marido, mas a maioria das fotos que me mostram passarinhando foram tiradas pelo Cris, então fica a contradição das fotos dele ilustrarem esse post. E uma das fotos foi tirada pela querida Juliana Diniz.

Se você mora numa das cidades grandes, ou perto de uma, em geral não tem dificuldade pra conseguir companhia pra passarinhar. No Facebook, no grupo Quero Passarinhar, é fácil fazer um anúncio e encontrar companhia, ou então olhar no Wikiaves e ver quem são as pessoas que estão postando fotos na cidade, entrar em contato com a pessoa e combinar um passeio.

Mas em cidades menores é comum ser difícil ter outros birdwatchers ativos.

Ou você pode ser como eu: misantropa, introvertida, ISTJ segundo Myers-Briggs, e o fato é que você gosta muito de passear sozinha e se for pra ter companhia, tem que ser com gente cuja companhia é tão bom quanto estar sozinha (que são as pessoas com quem você tem sintonia de assuntos, mas que também valorizam silêncio e contemplação). E aí, como viajar e aproveitar?

 

Existem riscos de segurança e medidas simples pra diminuir as chances de ter problemas quando você vai sozinha:

– Sempre fazer revisão do carro, ser conservadora pra ter sempre gasolina e não correr risco de pane seca, tentar viajar de dia, especialmente se você está indo pra um lugar que ainda não conhece, lembrar que há lugares sem sinal de GPS ou de celular, que não aceitam cartão de crédito, que não têm caixa eletrônico.

– Pesquise sobre o lugar que você vai. Geralmente eu só vou sozinha pra lugares familiares, conhecidos. Por exemplo, sempre vou pra Campos do Jordão e costumo ir pra trilhas que já fui com o Cris, ou com o Thiago Carneiro, aprendi o caminho, sei que são lugares tranquilos e seguros. Se é um lugar mais longe, com menos informação, só vou se for com algum dos guias com ótima reputação, que você sabe que conhecem bem o local, e que as chances são baixas de ter problemas como se perder ou ser assaltada.

– Se você não conseguiu um guia pra ir a um lugar desconhecido, entre em contato pelo Facebook ou pelo Wikiaves com pessoas que moram na cidade e pergunte se elas conhecem o parque tal ou a região tal que você pretende ir, se é o tipo de lugar que uma mulher pode passarinhar sozinha. Em geral as notícias sobre assaltos circulam rápido, e os moradores locais costumam saber onde é perigoso ir.

– Em Campos do Jordão, nos lugares que fui com o Cris ou o Thiago, não me sinto insegura por estar em locais que não passa gente. Mas em locais que não conheço bem, mesmo um parque urbano, evito ir pra lugares isolados que não passa gente.

– Isso falando de Brasil. Na Europa, Estados Unidos, dentro do Kruger na África do Sul andei sozinha em vários lugares e não senti qualquer risco. Ainda que num dos campos do Kruger, quando fui fazer o check in num campo o atendente me perguntou “Where’s your husband?”, e não era cantada, perguntou num tom de voz bravo. Falei que ele teve que ir embora antes. Mais fácil do que dizer “sou mulher mas tenho o direito de viajar sozinha sem marido”.

– Na Austrália tive uma outra preocupação: em lugares que fiz snorkeling e estava sozinha, sempre olhava se tinha mais gente ao meu redor, um bom sinal de que havia riscos baixos de ser uma área com correnteza ou que as águas-vivas fossem um risco.

– Seguro do equipamento: tenho seguro da Porto Seguro, via Kertzmann (indicação da Silvia Linhares, que já derrubou a câmera no chão, quebrou, e eles pagaram sem nenhum problema). Você faz o seguro e não precisa ficar preocupada se cair, se tiver assalto. Mas não pode deixar a mochila dentro do carro, ou esquecer no restaurante.

– Risco de assédio: isso é algo muito raro no mundo do birdwatching. A única história que ouvi  é sobre um guia que estava filmando garotas de biquíni numa cachoeira, e não eram as clientes dele. Mesmo assim, o guia que me falou sobre isso disse “não saiam com esse cara”.

No geral o clima dos passeios é de muito respeito e cordialidade. A maioria das pessoas não está lá pra paquerar, e sim pra fotografar, e têm cônjuge ou namorado. Eu vejo assim: é um voto de confiança seu marido ou esposa não discutir com você porque você está indo pro meio do mato com um desconhecido ou desconhecidos. O mínimo que a gente pode fazer é ter um comportamento irrepreensível. O que não justifica a patrulha moral-besta, falo disso depois.

 

Questões de reputação dos guias ornitológicos

– Todos os guias que eu já saí e recomendo aqui no Virtude são pessoas 100% confiáveis. Gente como o Fabio Barata, Gabriel Leite, Thiago Carneiro, Geiser Trivelato, Adrian Rupp, Wagner Nogueira, Gustavo Pinto, Guilherme Battistuzzo, Batista (de Tavares), Gustavo Magnago, Rodrigo Vieiras (MG), Rafael Fortes, Alejandro Olmo – esses são guias com quem já fiz passeios e atesto o quanto são de confiança, é gente que já recebi ou receberia na minha casa. Wagner ou Gabriel, por exemplo, deixo a chave pra eles na portaria, e faria isso com os outros também.

– Alguns guias eu ainda não fiz passeios com eles, mas tenho pessoas em quem confio bastante que me falaram muito bem deles. Ciro Albano, Caio Brito, Jefferson Bob, Jarbas Mattos, Marcelo Barreiros, Tomaz Melo, Alessandro Abdala, André Grassi, Carlos Gussoni, Marcos Silva, Igor Camacho, Elvis Japão, Jô Bernardes (Sítio Espinheiro Negro), Luiz Fernando e Vanilce (Manaus). Não vou dizer que quem não está listado não é bom, e sim aqueles que eu citei os nomes, ou conheço pessoalmente ou tenho algum amigo que me garantiu que a pessoa é ótima.

Só ouvi falar de umas três pessoas que eu não deixaria um amigo sair com esses. Mas não acho certo divulgar os nomes. O que posso dizer é: se for alguém que não foi citado aqui, pesquise informações sobre a pessoa, veja se tem vários clientes falando bem.

 

Camuflagem. As vantagens de não chamar atenção

Por personalidade já sou uma pessoa básica. Em geral não compro roupas de marca ou estilosas. Tenho umas coisas da North Face, mas é só por durabilidade-conforto-tecido-tecnológico. Mas fora isso, quando saio costumo estar vestida da cabeça aos pés, com calças largas, camisetas ou camisas largas. Quando saio com o Cris ou com um grupo de pessoas conhecidas não tem problema estar com uma camiseta mais justa, mas se estarei sozinha é uma tranquilidade a mais pensar que estou o mais desinteressante possível. Além das roupas sem graça, em geral estarei com o cabelo desgrenhado pelo vento, sujo de poeira, sem nenhuma maquiagem, e talvez com os olhos vermelhos pela poeira e sol do dia.

Roupas largas, chapéu bocó, e se a câmera está pendurada na alça ao longo do corpo às vezes as pessoas nem reparam em você (carregando o tripé é bem mais difícil passar despercebida). Fora isso em geral minha street face é de gente antipática, quando ando com o Cris as pessoas fazem perguntas pra ele, não pra mim.

Como dá pra ver na foto, no meio das plantas há trechos de terra batida. O lugar onde sentei era de terra batida, e tentei amassar o mínimo possível de plantas. Gosto de fotografar plantinhas silvestres e evito pisar ou danificar.

 

Raramente eu saio pra passarinhar sozinha com calça jeans justa e camiseta que mostra o volume dos seios. Aqui estava com o Cris na Serra do Japi.

 

Apesar da camuflagem…

Apesar da camuflagem, concluí que o certo seria arrumar uma aliança fake, pra usar só durante esses passeios que vou andar sozinha. Eu e o Cris moramos juntos há 13 anos. Não casamos no civil ou na Igreja – preferimos gastar o dinheiro em viagens :) e não usamos alianças.

Mesmo com essas roupas, teve alguns passeios em que atraí atenção só por ser uma mulher perambulando sozinha. Fiquei pensando que quando a pessoa se aproximou, se eu estivesse usando uma aliança vistosa, talvez o cara tivesse desistido de puxar conversa.

Se eu estivesse dentro de algum padrão de beleza com certeza teria sido mais abordada. Felizmente não passei por nenhuma situação ofensiva ou agressiva quando estava passarinhando. Mas sei o que é receber cantadas na rua ou sofrer bullying na rua por ser oriental. Basta uma saia no meio da coxa, ou uma bermuda mais justa, ou uma blusa mais justa ou com decote, e você já vira um objeto.

Pra ficar claro: sou feminista assumida e acho que as mulheres têm o direito de se vestirem como quiserem, e que nada justifica um cara ser folgado, rude, agressivo. Mas o fato é que roupas mocorongas que te tornam desinteressante ajudam bastante a ter sossego.

 

Questões da sua reputação

O Wagner Nogueira e a Camila Lima, quando ainda eram namorados, me falaram que biólogos não têm ciúme porque são tantas as situações em que será um monte de homens e mulheres no mesmo dormitório, ou um monte de homens e mulheres no meio do mato, que se você for encanar com isso fica maluco.

Esse é um ótimo pensamento, não? Pena que nem todo mundo consegue pensar como os biólogos, ou pensar em qual o problema de homens e mulheres juntos no mato, ou no mesmo dormitório.

Tenho uma amiga que mora numa cidade com poucos birdwatchers. Um dia apareceu no Wikiaves um cara novo na cidade, postando fotos. Falei: “Entra em contato com ele, combina pra vocês passearem juntos”, ela me falou “não posso. Ele é casado, eu sou casada, se a gente sair juntos o pessoal começa a falar”.

Também já aconteceu de fazer um passeio com uma amiga e um amigo. No final do passeio nos fotografamos abraçados como amigos. Uma das fotos estava minha amiga e meu amigo abraçados. Ela postou a foto no Facebook e uma conhecida mandou uma mensagem “você está pegando esse cara?”, e ela apagou a foto.

Essas são duas situações muito tristes, mas que podem acontecer com facilidade. Eu moro em São Paulo, e o Cris tem zero de ciúme. Ele não se importa nem um pouco de eu sair com homens casados, recém-conhecidos, ou que só conheço por conversar no Facebook. Sei que numa cidade pequena pode ter mesmo fofoca, mas gostaria que essa minha amiga tivesse decidido algo como “vou conversar com meu marido, falar da situação, e se não incomodá-lo, não vejo por que eu deveria me importar”. Mas não falei isso pra ela, achei que seria impertinente da minha parte.

Quanto à outra situação, socializo com pouca gente, mas queria ver alguém vir me dizer um “a” porque estou abraçada com um cara numa foto, ou porque por algum lugar aparecem notícias de que fiz passeios ou viagens com fulano – só eu e ele, sem meu marido, sem a namorada dele. Eu iria descascar a pessoa publicamente, é muito absurda a ideia de que homens e mulheres não podem fazer um passeio juntos sem que role paixão e sexo. E veja que é uma ideia que prevalece na prática pra muitas pessoas, quando dizem que precisa ter alguém pra segurar vela num encontro, pra fazer o papel da dama de companhia.

Lute contra isso. Se seu marido ou namorado é ciumento fica um pouco mais difícil, mas lute mesmo assim, fale sempre o quanto não faz sentido querer praticar esse controle sobre alguém.

Além das roupas mocorongas, nos passeios costumo ser uma pessoa mais fria. Não tenho problema com contato corporal, sou o tipo de gente que abraça amigos, anda abraçada, toca o braço, o ombro, dá tapas. Mas nos passeios na mata, por mais que eu goste da pessoa, com a maioria mantenho distância física e nunca entro em papos estranhos. Não acho que algum dos colegas já tenha tido algum interesse por mim ou tentando me cantar, mas é só um cuidado a mais que faz eu me sentir totalmente tranquila e sempre com a consciência limpa.

 

Uma vez fui fazer um passeio com um outro birdwatcher. Eu e ele iríamos no meu carro pra um lugar passarinheiro, encontrar um guia. Esse birdwatcher conhece o Cris. Na terceira vez que ele me perguntou se o Cris realmente não podia ir, decidi falar “Fulano, pode ser só bobagem da minha cabeça, se for isso, apenas dê risada. Mas pensei se você está preocupado porque vamos só nós dois. Não sei se a [nome da namorada dele] tem ciúmes. O Cris não tem nenhum, e queria te dizer que já fiz isso muitas vezes, já fiz várias viagens só com um colega, com um guia, até já dividi quarto com um guia por uma questão de custos (eu e o guia num quarto, minhas duas amigas no outro quarto). Felizmente não vai ser nosso caso, teremos quartos separados. Digo felizmente porque eu ronco :). Não tem por que se preocupar”. Ele disse que não estava preocupado, mas eu acho que estava, e que não custava nada dizer isso.

 

É isso, amigas birdwatchers ou não-birdwatchers, mas que gostam de passeios na natureza. Queria dizer que é possível fazer muitos passeios, sozinha ou na companhia de um guia ou um colega que você só conhecia pela reputação em Facebook ou Wikiaves. Cuide dos itens básicos de segurança, pesquise um pouco sobre a reputação das suas companhias, dê uma banana pra polícia moral que vai dizer que uma mulher de bem não deveria ir pro mato com um homem que não é seu marido. E divirta-se.

 

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