Neste álbum: fotos de vários lugares que já visitei no Brasil, com comedouros e bebedouros, e algumas das várias fotos que só consegui graças aos comedouros e bebedouros.

 

No Brasil deveria haver mais comedouros e bebedouros para atrair aves, inclusive dentro dos parques públicos

  • Texto e fotos: Claudia Komesu

Este é um tema que já tem vários posts no Virtude, e de vez e quando publico de novo, para ajudar a divulgar a ideia.

Apesar de proibidos em parques públicos brasileiros (http://www.oeco.org.br/blogs/olhar-naturalista/o-pais-onde-alimentar-passarinhos-e-crime/) e presentes no Brasil apenas em poucos locais particulares, comedouros e garrafinhas de água com açúcar estão espalhados pelo mundo todo, inclusive dentro de parques públicos nos Estados Unidos, além de serem presença constante em dezenas de milhões de jardins na Europa e nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, 50 milhões de pessoas têm o hábito de manter comedouros em suas casas. Já foram feitas dezenas de pesquisas sobre o quanto esse hábito afeta ou pode prejudicar a natureza, e em linhas gerais, a conclusão é:

– Comedouros não “viciam” as aves.

– Comedouros e bebedouros podem transmitir doenças para as aves se não forem higienizados. Recentemente houve a disseminação de uma doença entre House Finchs, associada a falta de higienização e alta concentração de aves em comedouros. Entretanto, os pesquisadores são categóricos em afirmar que isso não é motivo para desaconselhar os comedouros.

– Em um mundo em que há cada vez mais perda de habitat, os comedouros ajudam algumas espécies a sobreviver. As que estão ameaçadas de extinção não têm relação com comedouros ou não-comedouros, mas principalmente com a perda de habitat.

– O maior ganho para a natureza com os comedouros é o fato de fazer as pessoas prestarem mais atenção na natureza.

http://www.audubon.org/news/to-feed-or-not-feed

https://www.thespruce.com/bird-feeding-myths-386615

Analysis: Do Bird Feeders Help or Hurt Birds?

O artigo de Emma Greig (link acima) de janeiro de 2017 publicado no Living Bird magazine mostra o resultado de análises de 30 anos de dados sobre as espécies que frequentam comedouros:

“We decided to put the nearly 30 years of Project FeederWatch data to use to try to answer this question. We made one simple prediction: if feeding birds is harmful, then the species that use feeders the most should be doing the worst, all else being equal. (…)

We found that species that use bird feeders the most tended to be doing just as well as, or better than, species that use feeders more sporadically. For example, Red-bellied Woodpeckers visit feeders regularly and are thriving, whereas Pinyon Jays visit feeders more sporadically and are showing declines. The feeder species that showed declines seem to be faced with non-feeder–re­lated pressures, such as habitat loss. For Pinyon Jays, the most pressing problem is the destruction of pinyon pine hab­itat. We are still working to refine this analysis, but the take-home message so far is that species that visit bird feeders a lot tend to be doing very well. (…)

But which are the species in need of urgent conservation action, according to the State of the Birds report? Well, they aren’t visiting your feeders. The species most in trouble are seabirds, shorebirds, and tropical forest dwellers. This means that although feeding birds may not be harmful to the species that use feeders the most, it also isn’t helpful to the species that most need our help.

But don’t take down your feeders in despair. One of the most important impacts of feeding birds is that it allows people to feel connected to the natural world. (…)”

 

Você sempre lê placas nos parques escrito “proibido alimentar os animais”. Por que com as aves deveria ser diferente?

Talvez você já tenha ouvido falar dos artigos que dizem que alimentar aves favorece espécies como pombos domésticos e aves que não são do país, mas repare que em ambos os estudos eles estão falando sobre o costume de dar pão:

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2015/05/alimentar-aves-silvestres-nas-cidades-prejudica-especies-nativas-diz-estudo.html

http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3248161/How-Britons-leave-bread-birds-changing-migration-patterns-Species-increasingly-travel-UK-Spain-food-available.html

The researchers said they were not encouraging people to stop feeding birds, but urged them to consider putting out food that specifically attracts native species.

Pão e outros alimentos feitos pelo homem são prejudiciais para os bichos. Além de não serem saudáveis, há situações trágicas como o problema com os ursos nos Estados Unidos: ursos que provam comida humana ficam viciados e se tornam violentos na busca por comida humana, em muitos casos os rangers são obrigados a matá-los. Pão, chocolate, batata frita, bolacha: esses são péssimos alimentos para os bichos (e não muito bons pras pessoas também).

Dar pão ou bolacha é muito diferente de manter comedouros com frutas, garrafas de água com açúcar para beija-flores. A água com açúcar tem função semelhante a do néctar. Apesar do açúcar ser um alimento ruim para pessoas, ainda não foi comprovado efeito negativo para os beija-flores que têm um metabolismo bem diferente e precisam de muita energia. No caso de frutas como banana ou mamão, nunca ouvi falar de qualquer contra-indicação. Inclusive no aspecto dependência, todas as pesquisas que eu li diziam que mesmo quando a ave se acostuma com os comedouros, ela não passa o dia todo lá, sempre tem fontes alternativas de alimentos, e qualquer um que já tenha passado um tempo frente aos comedouros sabe que isso é verdade.

Não consegui achar nenhuma pesquisa que comprove que bebedouros ou frutas, desde que em ambientes limpos com regularidade, faça mal pras aves. Mais do que isso, no caso do Brasil, o aspecto “conectar-se com a natureza” é essencial, algo que pode ajudar na luta pela preservação da natureza. No Brasil todo birdwatcher conhece alguém, ou então foi a pessoa que se maravilhou com a natureza porque um dia viu uma ave de perto num comedouro.

A Trilha dos Tucanos, em Tapiraí – SP, é um lugar que já recebeu críticas por postar fotos em que saíras ou araçaris vem comer nas mãos das pessoas. Já fui várias vezes pra Trilha e conheço os donos do local, e posso dar uma opinião. Eu não gosto da ideia de bichos comendo na mão, ou fotos de birdwatchers acariciando aves. Por causa do problema que temos com o tráfico de animais, que é uma atividade horrenda e que mata dezenas de milhões de bichos todos os anos, criei uma resistência a propagar qualquer imagem que alimente a ideia de animais silvestres como pets. Eu não divulgaria. Mas quem conhece os bichos sabe que há espécies que se sentem mais à vontade com pessoas, quem mora em lugares de Mata Atlântica vê saíras-sete-cores entrando dentro da casa pra comer banana, sabem que araçaris são curiosos. Mas, o que realmente importa: me contaram que na Trilha dos Tucanos já viram homens adultos chorando de emoção ao ver um araçari pousar em suas mãos para comer banana. Também sei de gente que conheceu a famosa propriedade do Jonas em Ubatuba, um paraíso de beija-flores, ou melhor, um lugar em que você se sente no paraíso, porque você pode ver tantos bichos maravilhosos passando tão perto de você, sem medo algum, porque há anos aprenderam que aquele é um lugar que oferece alimento e que as pessoas não fazem mal — soube de gente que conheceu esse lugar e não conteve as lágrimas.

Nem todo birdwatcher se torna um protetor da natureza. As redes sociais mostram um grupo em que colecionar lifers e fotos impressionantes parece ser a atividade principal do birdwatcher, enquanto ações para proteger e valorizar a natureza, mesmo quando é algo como “você pode gastar 30 segundos e assinar essa petição?”, recebem pouca atenção.

Mas entre tantos problemas do mundo, o primeiro passo para lutar por algo é conhecer um pouco sobre as pessoas ou as criaturas que estão em risco, sentir empatia e se importar com elas. O birdwatching no Brasil seguiu um caminho que valoriza muito ranking, conquistas pessoais, likes e elogios. Mas tenho visto cada vez mais birdwatchers que buscam algo maior do que a glória pessoal e, de forma geral, vemos cada vez mais pessoas falando sobre a importância de fazer o bem, de se envolver em algo que faz diferença para o mundo.

Tenho esperança de que num futuro próximo, a próxima pessoa que chorar de emoção por ver a natureza de perto, será guiada não pela busca de glória pessoal, e sim o caminho de “o que eu posso fazer pra ajudar esses camaradinhas a viverem”.

 

Lugares que mantêm comedouros para aves

http://mochileiroshostel.com.br/ – Fica no bairro do Guaraú, em Peruíbe – SP. O proprietário, Fabio barata, é um biólogo da herpetologia que se apaixonou pelas aves também. De junho a agosto é época mais movimentada nos comedouros. Conheci o local em novembro do ano passado, havia pouca movimentação nos comedouros (outra prova de que os comedouros não viciam aves), mas foi um passeio muito legal, adorei, voltarei lá em abril. Algumas das aranhas mais incríveis que já vi fotografei nesse lugar, relato aqui: http://virtude-ag.com/guarau-peruibe-out2017/.

http://www.trilhadostucanos.com.br/ – Tapiraí, São Paulo. Uma pequena propriedade particular de Mata Atlântica. Os proprietários são pessoas muito bacanas e que adoram a natureza. Além dos beija-flores nas garrafinhas de água com açúcar muitas outras espécies aparecem pra comer banana, inclusive benedito-de-testa-amarela. Eles também mantêm um hide com milho que atrai espécies florestais incomuns. No Wikiaves você verá muitas fotos feitas lá: http://www.wikiaves.com.br/especies.php?t=c&c=3553500, e no Virtude tem alguns posts: http://virtude-ag.com/?s=trilha+dos+tucanos

https://www.pousadadafazenda.com.br/ – Sul de Minas. Esse é outro lugar que conheci pessoalmente, o proprietário mantém bebedouros que atraem muitos beija-flores no inverno. Fui em maio e fotografei vários bichos. A diária é cara, em 2013 já era R$ 600 pensão completa. O local é bem cuidado, comida orgânica. Mas se for caro pra você, entre em contato com o proprietário, o querido Zaga, talvez ele possa fazer um desconto se for durante a semana, ou então você combina um day use. http://virtude-ag.com/pa-monte-alegre-do-sul-paraiso-de-beija-flores-maio13-por-claudia-komesu/

Jonas – Ubatuba – SP. Um dos lugares mais conhecidos no mundo todo quando se pensa em comedouros na Mata Atlântica. É a casa do Jonas, um senhor aposentado que há vários anos mantém comedouros e bebedouros, e gentilmente permite que as pessoas entrem e fotografem. Falo que é um dos lugares mais conhecidos no mundo porque os guias conhecem o local e levam seus clientes lá, ou então estrangeiros que vêm sozinhos pro Brasil ouviram falar e também vão visitar. Jonas não cobra taxa, não aceita dinheiro. O máximo que já consegui foi ele aceitar doações de bananas, açúcar, um vinho. E sei que ele se preocupa quando aparecem pessoas pra visitar a propriedade e andar nas trilhas, mas estão com roupa de praia: chinelo, bermuda, algo bem impróprio pra região. Se for visitá-lo, vá de calça comprida e sapato fechado, e leve repelente. Algumas das minhas melhore fotos foram no quintal do Jonas, inclusive uma em que ganhei um prêmio do Avistar, na época que era patrocinado pelo Itaú (topetinho-verde em display). Se você quiser visitar a propriedade, entre em contato comigo (claudia.komesu@gmail.com) se apresente, eu passo o email dele e você combina a visita. Peço que seja respeitoso e gentil, lembre-se que não é um estabelecimento comercial e sim a casa de um homem bondoso.

https://www.espinheironegro.com/ – A 1h30 de São Paulo. Ainda não fui conhecer, mas ouvi falar bem, e pessoas em quem eu confio disseram que os proprietários são muito gente boa.

Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, Aracruz – ES: Conheci em 2009, quando o filho de Augusto Ruschi, André Ruschi, ainda era vivo. Pelo site deles me parece que eles mantiveram os bebedouros, mas se quiser visitar, acho que vale a pena entrar em contato antes: http://www.ruschicolibri.com.br/birdwatching.html

http://regua.org.br/ – REGUA – Reserva Ecológica de Guapiaçu, Cachoeiras de Macacu – RJ. Só fui uma vez em 2009, eles tinham comedouros e bebedouros, mas que não estava muito movimentados (era dezembro). Mas é um lugar famoso e totalmente recomendado, com proprietários muito amáveis e atuantes na preservação da natureza. Para terem uma ideia, o principal guia deles é um ex-caçador, que agora é guia ornitológico.

 

Sobre os lugares citados que não pode mais ser visitados

– A RPPN Guainumbi durante alguns anos foi um dos lugares mais famosos no Brasil para birdwatchers. Era um lugar incrível e delicioso, mas sofria os problemas da falta de recursos financeiros. Eu fazia parte de um grupo de voluntários que ajudava o proprietário a pensar nas questões da propriedade, em como alavancar os negócios. Mas era tudo bem difícil, e quando surgiu a oportunidade de vender, eu mesma aconselhei o proprietário que essa seria a decisão mais racional. O proprietário morava longe, estava com problemas na coluna e não podia mais viajar todo fim de semana para a Guainumbi, enfim, sei que essa decisão foi muito difícil pra ele, mas o João Marcelo é uma pessoa que já tinha feito muito pela natureza e fico contente que ele tenha concordado em vender.

– A Serra dos Tucanos, em Cachoeiras de Macacu – RJ, não é mais uma pousada, uma pena.

– Garagem do sr. Dominguinhos em Vargem Bonita – MG. Não sei se você reparou na foto:

Garagem do sr. Dominguinhos – Vargem Bonita – MG

O local era isso: totalmente improvável. Tinha uma garagem, esse barranco de terra, quase nada de vegetação nos arredores. Mas Vargem Bonita fica ao lado de São Roque de Minas, ou seja, é a cidade da Serra da Canastra. Não tenho certeza de por que o sr. Dominguinhos quis colocar bebedouros, mas o fato é que colocou, e começaram a aparecer muitos beija-flores. Um dia o guia Geiser Trivelato estava passando por lá de carro, e viu um beija-flor cruzar a frente do carro. Ele seguiu o beija-flor e descobriu esse local. Tive a sorte de conhecer nessa época. Depois de um tempo o sr. Dominguinhos se mudou, e agora não há mais point de beija-flores. Algumas das minhas melhores fotos de beija-flores, inclusive essa da abertura, o beija-flor-de-orelha-violeta com atitude, foram feitas lá. Relato da viagem: http://virtude-ag.com/canastra-joias-cerrado-ago11-claudia-komesu/

Garagem do sr. Dominguinhos – Vargem Bonita – MG

Fico imaginando o que poderia render de fotos bonitas se mais pessoas, ou restaurantes, ou pousadas, especialmente as que ficam localizadas em locais próximos a áreas preservadas, se essas pessoas mantivessem comedouros e bebedouros, ou mesmo se a gestão dos parques brasileiros mudasse de mentalidade e passasse a valorizar os ganhos com educação ambiental que os comedouros trazem.

 

Monte seu próprio comedouro:

Comedouros

O post acima tem informações sobre comedouros.

Qualquer lugar pode atrair aves. Até mesmo gente que mora em apartamento pode colocar garrafinhas de água-com-açúcar, e depois de um tempo poderá ter beija-flores na janela. Uma vez passei uma semana em Ubatuba, numa casa com quintal. Coloquei bananas na varanda, e logo tinha várias saíras, tiês-sangues, gaturamos. Quando passo uns dias em Campos do Jordão, se eu colocar bananas no quintal sempre aparecem aves. Restaurantes e pousadas conectados com alguma área natural também deveriam manter sempre: deixa os clientes felizes, ajuda na divulgação do local. Quem sabe um dia os parques brasileiros também valorizem o aspecto da divulgação e permitam comedouros.

 

Mais informações sobre comedouros: http://virtude-ag.com/?s=comedouros

Livre divulgação: como atrair fotógrafos e observadores de aves para sua pousada, atrativo, parque ou restaurante com área verde.  Jun/12.

 

 

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