• Texto e foto: Claudia Komesu
  • Essa foto foi feita na Transpantaneira em agosto deste ano. O que precisamos é de cada vez mais gente curtindo a natureza, e burocracia e controle não levam para esse caminho. Credenciamento obrigatório e guias faz sentido para atividades como saltar de para-quedas, mergulho, escalada. Mas por que pro birdwatching?

Nos últimos dias, meio por acaso, comecei um debate sobre alguns temas polêmicos do birdwatching brasileiro. Falamos sobre playback, sobre exigência de certificação para poder guiar, e teve até quem sugeriu a ideia de se criar uma licença para passarinhar, assim como existe a licença para pescar.

Se você tiver interesse em ver são posts públicos no meu Facebook: https://www.facebook.com/claudia.komesu.

A licença para passarinhar só foi defendida por uma pessoa, é improvável que essa ideia avance. Mas a exigência de cursos obrigatórios pra guias é uma ideia defendida por vários, inclusive algumas pessoas de quem eu gosto bastante e respeito o trabalho, e sei que elas falam isso não por visar qualquer lucro, mas porque realmente acreditam que esse é o melhor caminho para o birdwatching no Brasil.

Respeito e entendo os motivos dessas pessoas, mas vou continuar defendendo a ideia de que seguir o caminho de cursos obrigatórios prejudica a natureza, e vou expor aqui meus argumentos:

Este foi o primeiro post que publiquei no Facebook para esse debate:

“Por que eu sou contra a exigência de credenciamento pra guias ornitológicos

1 – Não acredito que o credenciamento garanta a postura ética do guia

O uso abusivo do playback, na busca do lifer ou do fotão, pode mudar com uma mudança cultural da nossa comunidade, se tirarmos o foco de lifers-likes, e valorizar mais a responsabilidade com a natureza. Também acho que é possível os guias se reunirem e combinarem algo como “vamos fazer um pacto entre nós. A gente vai colocar um disclaimer nos nossos sites, páginas, e avisar no primeiro contato com o cliente ‘eu pratico o playback responsável. Não toco playback perto de ninho e vou interromper a gravação se a ave der alguma mostra de estresse, mesmo que você ainda não tenha conseguido fazer uma boa foto’”. O que é combinado não é caro. Um tempo atrás comecei a falar disso com alguns guias, que gostaram da ideia. É uma ideia que pode ser amadurecida e que não depende de credenciamento.

2 – Muitos guias começam a trabalhar de forma leve, informal, e muitos nem serão guias em tempo integral

O credenciamento exige pagamento de um curso, tempo pra fazer esse curso.  Significa que só poderá ser guia quem decidiu investir na carreira. Essa não é uma decisão fácil, e pra muitos não acontece de repente.

Outra questão: imagine que eu uso o playback, tenho uma boa audição, vejo que estou conseguindo bons resultados em reconhecer o canto, atrair a ave, fotografar. Passo a guiar meus amigos, muitas vezes sem ganhar nada, às vezes me pagam a gasolina. Essa é uma situação bem comum. Essa pessoa é um guia ilegal?

3 – Guia ilegal pressupõem fiscalização. Realmente queremos guardinhas nos parando com um “tem autorização para guiar?”

4 – Sou a favor de profissionalização. Acho ótimo pensar na ideia de cursos de primeiros socorros, de localização na mata, de questões ornitológicas do uso mais eficaz do playback, de fotografia, de relacionamento com o cliente, tudo é ótimo, e quem fizer esses cursos tem todo o direito de propagandear que fez, ele passa a ser um guia com mais qualidades. E esses guias também têm todo o direito de fazer uma ação política e se aproximar da gestão de um parque, estabelecer uma parceria, oferecer listas, fotos, ajuda em eventos, e ganhar o direito de entrar mais cedo, de acessar áreas que são restritas aos visitantes comuns, não vejo nada de errado nisso.  Mas não quero que o Estado me proíba de contratar um guia que não tem essas certificações.  Como cidadã, quero ter o direito de escolher.

5 – O argumento do credenciamento é de que assim só teríamos guias responsáveis, conscientes, e que respeitam a natureza. Não acho que é o credenciamento que faz isso, e sim a moralização dentro da comunidade, as conversas entre nós, a discussão sobre valores e limites. Um guia com quem eu conversava sobre playback me falou que alguns clientes fazem pressão, se você para de tocar o playback dizem que o guia está fazendo corpo mole. O credenciamento não muda essa situação. A mudança de valores na comunidade sim.

6 – Não quero o Estado me proibindo de contratar um iniciante. Posso dar um exemplo pessoal agora, como já escrevi em outro momento: no início do mês fui pra Manaus passarinhar com o Gabriel Leite. Eu e meu marido. Éramos os primeiros clientes brasileiros dele, ele já tinha guiado, mas só estrangeiros, de forma esporádica. Foi uma viagem excelente, que me dá vontade de voltar várias vezes pra Amazônia. No cenário com credenciamento eu não poderia ter feito essa viagem com ele.

7 – Não conheço nenhuma história grave de acidentes, perder-se no mato, ou violência contra o cliente, nesses 8 anos de atividade mais intensa no Brasil. Já ouvi falar de um guia experiente que se perdeu numa trilha com o cliente. Sinceramente, não é o credenciamento que garante que seu guia nunca vai se perder com você.

8 – A obrigatoriedade de credenciamento inibe a formação de novos guias. Portanto, inibe o desenvolvimento do birdwatching.

9 – Passarinhar causa impacto na natureza. A mera abertura de uma trilha, ou de gente andando na mata causa impacto na natureza. Tocar o playback causa algum impacto, até agora não provado que seja grave a ponto de proibir. Mas estamos no Brasil, esse país fabuloso, com a maior biodiversidade do mundo, e que todo dia tem riquezas incríveis destruídas, trocadas por pasto, soja, mineração, extração de petróleo. Seria melhor pra natureza se não houvesse visitação nos parques? Se fosse proibido tocar playback? Talvez pra aquela fração do parque em que há as trilhas. Mas a médio e longo prazos, a ausência de visitação se converte em destruição da área.  A bancada ruralista domina o Congresso, o tempo todo eles tentam e muitas vezes conseguem aprovar medidas pra facilitar a destruição da natureza. Quem vai lutar contra isso? Só o povo. Só quando um grupo considerável de pessoas enxergar valor na preservação da natureza, quando houver mais turismo, mais valor nas áreas naturais. Não consigo imaginar nenhum outro caminho pra salvar a natureza.

Precisamos ter mais visitação nos parques. Precisamos mostrar pra mais pessoas que é uma delícia estar no mato. Precisamos de mais hospedagem, mais restaurantes, mais lojinhas, mais guias, mais comércio, mais economia rodando em torno do parque, que o parque se torne um bom negócio, que gere renda e afaste a sombra da destruição.”

 

Nos dias que se seguiram várias pessoas se manifestaram no post, e não consegui acompanhar porque estava off-line no fim de semana. Além das manifestações no post, recebi mensagens inbox de gente agradecendo por eu estar falando do assunto, que antes se sentiam sozinhos.

Conversando com essas pessoas, vi que poderia acrescentar um item aos argumentos:

10 – Implantar obrigatoriedade de credenciamento fará com que alguns guias experientes, competentes e éticos mudem de profissão, seja porque não podem ou não se imaginam fazendo o curso obrigatório, ou porque moralmente consideram errado ter que se sujeitar a esse protocolo.

E depois pesquisei, e confirmei o que já tinha falado de que teoricamente um cadastro não garante idoneidade, tanto que o Dúvidas Frequentes do Cadastur diz isso explicitamente no item 11: ele diz que o Cadastur não garante idoneidade do cadastrado, e se você quiser saber isso, deve procurar informações no Procon.

http://www.cadastur.turismo.gov.br/cadastur/DuvidasFrequentes.mtur

O Cadastur não traz garantia de uso criterioso do playback. Um guia que tenha feito o curso da Embratur provavelmente terá noção de primeiros socorros, mas ele não pode impedir de você escorregar e cair.

Implantar obrigatoriedade de credenciamento de guia de birwatching é uma medida que desestimula o crescimento do birdwatching.

Vou falar de novo pra ficar claro: não tenho nada contra os guias que querem fazer cursos, as agências que estão se profissionalizando cada vez mais e querem que todos os seus guias tenham cursos e diversas especializações, não há nada de errado nisso, pelo contrário, é muito bom para a atividade.

Mas como cidadã, não quero ser proibida de contratar um guia que não tenha essas certificações, eu quero ter o direito de escolher contratar um guia iniciante, ou um experiente e que não quer fazer os cursos.

Não há nada de errado com o Cadastur. Errado é quem defende a ideia de que ele tem que ser obrigatório.

 

Pensem bem: agências querem atuar cumprindo todas as regras. Um guia que deseja investir na carreira também pode escolher fazer o curso e outras especializações. Mas por que vamos inibir o surgimento de novos guias, que não têm certeza se conseguirão ser guias em tempo integral? Por que vamos fazer guias experientes desistirem do trabalho de guia? Por que vamos inibir ou desanimar o trabalho dos guias mateiros, os guias locais? Pra cumprir uma burocracia?

A natureza precisa de toda ajuda possível e não há nenhum histórico de casos que justifique implantar uma medida dessas. Há vários parques com visitação pública, em que não há exigência de habilidade especial ou de acompanhamento de monitor ambiental. Se eu posso caminhar nessas áreas sozinha, por que o guia que eu decidir levar comigo tem que ter uma série de competências?

Ser contra o credenciamento obrigatório não é ser contra a profissionalização do setor. É apenas um pedido de cidadã para que a gente não estimule a cultura da burocracia e controle, do “obrigatório”. Deixe as pessoas escolherem. Não há nenhum risco grave envolvido, não maior do que o cidadão caminhando sozinho nas áreas de visitação normais do parque. Por que criar essa obrigação?

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