Cada um faz o que quer da sua vida, temos livre arbítrio, somos um país livre e etc. Mas quando se é apaixonado, dá pra ficar quieto e tranquilo quando se vê gente zoando com a mulher amada, ou melhor, com o tema amado?

gotas01

 

  • Texto: Claudia Komesu. Mas talvez eu represente a opinião de outras pessoas também.

O birdwatching como atividade estruturada começou na Inglaterra no século XVIII, passatempo da nobreza em suas casas de campo. Hoje em dia, um dos países que tem mais tem birdwatchers, e que realiza pesquisas sérias sobre os birders são os Estados Unidos, um dos lugares mais competitivos do mundo. Sei que o espírito de competição está embrenhado com o birdwatching, mas eu sou do tempo do Aves do Brasil, do Jefferson Silva, peguei o início do Wikiaves, e volta e meia ouço alguma pessoa de quem eu gosto falar como o birdwatching no Brasil está ficando estranho.

Não temos pesquisa sobre o perfil dos birdwatchers. Mas se eu fosse chutar, diria que a maioria dos birdwatchers no Brasil são pessoas que gostam muito de contemplar a natureza e as aves, e que alguns até atuam a favor da preservação. Quem vê o birdwatching como um ranking de Life List, pontos na foto, quantidade de louvações, “likes” no Facebook é uma minoria, mas uma minoria capaz de incomodar.

Porque eu sou apaixonada pelo birdwatching, porque passarinhar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer, tenho a pretensão de dizer o que o birdwatching é ou não é:

 

Birdwatching é arco-íris, magia, sedução

É a oportunidade de ir caminhar em algum ambiente preservado e se encantar com a beleza da vegetação, das flores, folhas, reparar nos insetos minúsculos, admirar a luz filtrada pelas folhas, ouvir as aves, ser capaz de vê-las, fotografá-las, e às vezes até conversar mentalmente ou em voz alta com elas.

Uma saída a campo é nossa oportunidade de recarregar as baterias. Sentir-se conectado com a natureza, entender que estamos dentro do mundo e não acima dele, meditar sobre a beleza de tudo que existe. O luxo de, por algumas horas, esquecer de todas as coisas ruins que o bicho homem faz, enquanto aproveitamos só as coisas boas, como um binóculo, câmeras de última geração, acessórios, roupas de tecido tecnológico, playback, GPS, carro com ar-condicionado, etc.

O birdwatching nos oferece a oportunidade de desenvolver nossos sentidos: ouvimos mais, vemos mais, é quase um milagre. Aprendemos a reconhecer espécies de aves, nomes novos, alguns aprendem latim e a língua das aves.

Com o birdwatching também descobrimos que as aves estão em todos os lugares, inclusive nas cidades, e podemos nos encantar com a graça dos sabiás, bem-te-vis, andorinhas, pardais e outras aves comuns no meio urbano.

O birdwatching nos traz amigos. Só de saber que o outro também gosta de aves, já há mil assuntos em comum, e alguns se tornam grandes amigos.

 

Birdwatching não é competição e adoração. Veja se você está indo pro lado negro do birdwatching:

– medir o sucesso e satisfação de um passeio pela quantidade de lifers (lifer é uma ave que você nunca tinha visto, mas no Brasil significa a ave que você ainda não tinha foto).

– não é errado ter metas, objetivos, buscar uma espécie. O problema é ficar vidrado: a viagem só valeu se você conseguiu ver a espécie x, todo o resto é ignorado.

– buscar o registro de lifers como se fosse a pontuação de um jogo. Um guia do Pantanal me contou de uma vez em que guiava um grupo de estrangeiros, e os chamou “há um bando de araras-vermelhas comendo barro na margem do rio”, “não vamos ver, já ticamos essa espécie da lista”. E já vi brasileiros com comportamentos semelhantes. Uma coisa é dar lugar e espaço para outros do grupo que ainda não têm fotos. Outra é ter espaço e não querer nem olhar a ave porque ela já está “ticada”.

– passar um bom tempo comentando fotos dos outros – seja no Wikiaves, no Facebook ou no Flickr, para receber o retorno de comentários quando você publicar as suas.

– o comentário ou elogio não é algo ruim em si. Mas na lógica de pontuação e likes, você assume a postura de fazê-los de baciada, pra maior quantidade possível de pessoas, com aquelas frases prontas que já viraram motivo de piada.

– programar-se para postar suas fotos de forma a maximizar a quantidade de votos: horário, não ter outras fotos boas por perto (para não ter comparação. Se aparecer, você apaga e publica depois), divulga em todas suas redes sociais… certo, propaganda é importante, mas a não ser que você precise ganhar dinheiro com suas fotos, será que essa fixação pelo retorno não está indo longe demais?

– num passeio em grupo, o que mais importa é você conseguir fotos boas. Você passa na frente da câmera dos outros, é capaz de avançar sem avisar (e afugentar a ave que todos fotografavam, mas se você não tinha um ângulo bom, fazer o quê), anda na frente do guia, usa o seu playback enquanto o guia usa outro com o resto do grupo, a ponto de atrair pra você a ave que os outros tentavam fotografar, pode empurrar um pouco para conseguir um bom lugar, se só há uma janela você não dá a vez para o outro, pra não correr o risco de perder o momento em que a ave vai voar, se você descobriu um ângulo melhor, não avisa os outros, é capaz até de perturbar ninhos.

– num passeio em grupo, em que as pessoas tiram fotos parecidas, você sai correndo e até para numa lan house, para que a sua foto seja a primeira a encantar os usuários do Wikiaves, e não seja vista apenas como repetição de uma imagem já postada.

– você só posta fotos que tenham ficado boas tecnicamente, mesmo que o registro seja algo importante para a cidade – não apenas um lifer pra cidade, mas pode ser uma espécie incomum, e que sua foto borrada ou desfocada contribuiria como informação para o mapa, ou seria bom para a imagem do guia (a pessoa que guiou você no passeio). Sua imagem como ótimo fotógrafo tem que ficar acima de qualquer coisa?

– o que direciona suas fotos é a taxa de retorno de comentários e votos.

– em vez de voltar com a cabeça leve, feliz pela oportunidade de admirar as aves e ter contato com a natureza, você volta remoendo o que deixou de fotografar, o que não apareceu, as fotos que não ficaram boas. Claro, a não ser que tenha sido uma situação especial: você foi buscando uma ave específica, ou então apareceu o tietê-de-coroa, parou na sua frente, mas você não conseguiu fotografar. Fora os imprevistos fabulosos, planejar vários passeios seguidos em que só há uma forma de você voltar satisfeito é uma postura arriscada. O birdwatching deixa de ser diversão e vira trabalho, no mau sentido.

– esta eu sei que tem menos responsabilidade pessoal, e mais do sistema, mas considero um dos itens negativos: você só busca fotos 3×4 das aves? Ou seja, tudo que importa numa foto é ave na luz, no limpo, de perto, com penas super-definidas? E depois você faz um recorte fechado na ave? Pensar assim embota a visão. A natureza é linda, nossas câmeras têm recursos fantásticos, elas são digitais, você pode experimentar muitos tipos de foto.