Quando experimentei a ayahuasca muitos anos atrás eu ainda era o tipo de gente que detestava acordar cedo e os passeios no mato eram sinônimo de calor, insetos e sofrimento. Mesmo assim, minha trip teve momentos de voar pelo céu em direção ao sol, e depois mergulhar na terra. Não havia tragédia nesse voo, nada de asas derretidas. Naquela época não tinha interesse em andar na mata, mas nunca vou esquecer do calor do sol e da sensação de ser abraçada pela terra.

A Amazônia é um dos biomas mais impressionantes do mundo e brasileiros deveriam sentir mais reverência ainda. Como não querer conhecer um ambiente que se estende por metade do país, tão rico, com um papel fundamental no equilíbrio do planeta? Comecei a andar na mata há 13 anos, e já tinha passado pela Amazônia brasileira e peruana, mas esta foi a primeira vez que a visão da ayahuasca se conectou com as viagens.

E foi tudo por acaso, se é que acasos acontecem.

Viajei pra Manaus preparada pra pegar chuva todos os dias. Guarda-chuva, capa de chuva, calça impermeável, capas pra câmera. Pegamos sol no primeiro dia, então no segundo dia cometi a ingenuidade de deixar o kit no carro e quando a chuva chegou, no meio de uma trilha das Anavilhanas, eu só não morri porque o Gabriel tinha um saco plástico grande, extra, especial para clientes cabeça-de-mamão. As câmeras foram salvas, e a gente pegou chuva. Poucos minutos, mas intensa, o suficiente pra ficar encharcados, uma delícia naquele calor úmido.

O segundo acaso foi tropeçar e cair de quatro. Não que seja algo raro, minhas pernas são cheias de pequenas cicatrizes de quedas (coisa de gente que anda pra trás enquanto olha pra cima e cai em buraco de erosão de 2m de profundidade, ou que caminha com a confiança de quem está com bota de trilha e esquece que está de sandália, ou de quem vai pra um lugar com neve pela primeira vez e não sabe que cor diferente na calçada pode ser lâmina de gelo), além das picadas de pernilongos e micuins, que podem ficar marcadas por meses. Então, pra variar, nessa viagem eu caí. Enrosquei a bota num galho quando passava por cima de um tronco e caí de quatro. As pessoas queriam saber se eu estava bem, se ofereceram pra levar meu tripé, não, não, obrigada, está tudo bem, não foi nada.

Diferente das outras quedas nessa não aconteceu nada. Tudo certo com a câmera. E comigo, nem um arranhão, nem um roxo. Caí de quatro, e o que eu senti nas mãos e nos joelhos foi um tapete de folhas fofo, morno, acolhedor. Como na minha visão da ayahuasca.

Não pensei tudo isso na hora. A iluminação veio umas horas depois, deitada no chão de metal da ZF2, fazia quase 1h que nenhuma ave aparecia e decidi deitar e aproveitar a vista, sabendo que o Gabriel estava de vigília.

Acho que até tirei um cochilo, em meio a algum pensamento sobre o luxo de poder dormir com uma vista daquelas, vendo as copas de árvores amazônicas.

A Amazônia não é um bioma para principiantes. Eu sabia sobre o calor, as chuvas constantes, a umidade, os insetos, as distâncias grandes, as árvores altas, os bichos que não saem da brenha. Da viagem pra Parauapebas eu sabia o que era se sentir numa sauna o dia todo (só que é sauna com calça comprida, bota e camisa de manga longa), distâncias enormes, de ter que acordar às 3h30, rodar 2h num microônibus com ar-condicionado quebrado até chegar no primeiro ponto de parada. E do Peru, eu sabia o que era pegar chuva por várias horas no dia, chuva fina na trilha, ou chuva mais intensa, de ter que ficar no lodge esperando a chuva diminuir.

Eu tinha plena consciência de que aquela viagem estava cheia de mamatas. As três chuvas que pegamos, a primeira foi uma delícia e não atrapalhou em nada o passeio, a segunda foi na ZF2, que é coberta, então foi só apreciar a vista, na terceira estávamos no restaurante do Mari Mari, outra chuva rápida. Estava quente e úmido, de às vezes o suor ficar escorrendo pelo rosto, afinal é Amazônia, mas em média fazia menos de 30 C, em alguns momentos quando havia brisa ficava até confortável, mesmo com as roupas de trilha. Não havia muitos insetos, bem menos do que Parauapebas em dezembro. A ida à ZF2 foi o único dia que exigiu sair às 3h30 e rodar por mais de 2h, mas estávamos num carro confortável, com ar-condicionado funcionando, eu entrei no carro e dormi. E nos outros dias estávamos hospedados bem perto dos locais dos passeios, em 15 minutos já estávamos na trilha ou no barco.

A chuva em Anavilhanas, o tempo bom nos outros dias, pensar na terra como um tapete morno e fofo, o privilégio de tirar uma soneca na ZF2. Várias aves atenderam ao playback e pousaram no limpo, próximas. Comemos bem quase todos os dias, peixes assados deliciosos. Eu imaginava que o Gabriel era um bom guia, mas não sabia como ele era como pessoa. Além de um ótimo guia, o tempo inteiro focado, era alguém pra se conversar sobre um monte de assuntos e que também sabia ficar em silêncio, ele não causava ruído (ruído não no sentido de barulho, mas de atrapalhar algo).

Minha viagem pra Parauapebas foi em 2011. Passei 6 anos sem voltar pra Amazônia brasileira. Mas depois dessa viagem pra Manaus, agora penso que se dependesse só de vontade, iria várias vezes por ano.

Mesmo com todo o desconforto do clima e dos vários momentos difíceis (aves no escuro, na brenha, longe, no alto) a sensação de mata cheia de tesouros é muito grande. Sensação de que você pode ir pras mesmas trilhas todos os dias e nunca será igual. Aventura. Mar de floresta. Poder apreciar todo esse cenário sem nenhuma tensão ou preocupação.

Uns dias atrás postei uma tradução de um texto do Alan Moore e falei que tinha conexão com a viagem pra Manaus. Essa viagem foi o meu grito de coruja, é algo que me reconecta ao meu primeiro ano no birdwatching quando só havia o fascínio pelas aves e a vontade de ficar falando sobre as aves o tempo todo, uma época em que não havia competições, fogueira de vaidades, tráfico de elogios.

Desde que comecei a passarinhar, em 2009, vi o mainstream do birdwatching seguir um caminho  que valoriza coisas com as quais não me identifico. No final de 2011 tinha registrado mais de 600 espécies, e então desisti. Um lifer não parecia mais o prazer de ver um bicho que você nunca tinha visto, e sim um check pra uma lista, uma carência por elogios e atenção.

A viagem pra Manaus foi o puro prazer de ver criaturas fantásticas. Conheço por nome a maioria das aves do Sudeste, mas da Amazônia sei pouco, ainda mais por não acompanhar Wikiaves ou Facebook. Quando o Gabriel mandou a lista de espécies mais prováveis, tive o prazer de ler os nomes e pensar que a maioria delas não sabia como era, e não quis pesquisar. Imagino que vocês já passaram pela sensação maravilhosa de olhar pra um bicho e pensar “eu não sei o que é isso”, é muito mais emocionante do que reconhecer. Graças e assa ignorância calculada, tive o enorme prazer de ver e ouvir o uirapuru-verdadeiro ao vivo, sem nunca ter ouvido o canto, e sem lembrar de imagens de guia ou de fotos. Pra mim foi o momento mais especial da viagem.

Não sei o quanto poderei passarinhar. Nesses anos que me afastei do birdwatching tenho aproveitado bastante a convivência com a família, as viagens com a família. Tenho limitações de tempo e dinheiro. Mas pela primeira vez em muitos anos, voltei a ter vontade de fazer viagens passarinheiras grandes, com a possibilidade de ver muitas espécies nunca vistas. Não pelo ranking, não pela glória. Mas porque o mundo é cheio de criaturas fantásticas e temos a possibilidade de vê-las com nossos próprios olhos.

Obrigada Gabriel e Cris por essa oportunidade de me sentir conectada com a Amazônia brasileira.

 

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