Avistar 2018 – o maior encontro de observadores de aves é só alegria

  • Texto e fotos: Claudia Komesu
  • Avistar São Paulo aconteceu no Instituto Butantan, de 18 a 20 de maio

Pela primeira vez em muitos anos pude participar de um Avistar quase inteiro. Sair pra beber na quinta, na sexta, e ficar no Butantan sexta, sábado e domingo.

Minha mãe ficou meio surpresa. Estávamos papeando pelo telefone, ela falou que viu o evento na TV, contei que estive lá todos os dias e duas noites. “Tudo isso?”. Tudo isso. Mais ainda: sem participar do congresso, sem assistir a nenhuma palestra. É fácil entender. Quando você encontra outro passarinheiro, não é um bate-papo sem fim? Imagine um lugar com centenas de passarinheiros ou simpatizantes, e dezenas de conhecidos. Tanta gente que você só conversou por Facebook ou trocou e-mails e, de repente, como se fosse um portal, um passe de mágica, estão lá, em carne e osso.

 

Deixe a timidez pra lá

Não tem motivo pra ser tímido. O Avistar é uma festa, o clima é de muita alegria e fraternidade. Você pode ir sozinho e conversar o tempo todo, é só querer. Foi o que eu fiz. O Wagner Nogueira estava em casa, mas a gente chegou lá e foi cada um pra um canto. Você passa o dia conversando com tanta gente e, ainda assim, chegou o fim do domingo e pensei nas pessoas com quem queria ter conversado, mas não deu tempo.

Imagino que o Avistar em outras cidades é assim também. Se você nunca foi em nenhum, ou se já foi em algum mas não conseguiu se enturmar, mude isso. Basta chegar perto de qualquer rodinha, ou de qualquer pessoa que esteja parada ou zanzando por lá e puxe papo. Se apresente, fale e pergunte de viagens, das aves, do que a pessoa gosta nos passeios, da roupa da pessoa – muita gente vai com roupas que mostram um pouco do nosso amor pelas aves. Eu por exemplo fui com minha blusa de harpia num dia, e nos outros com o moletom do gavião-pega-macaco.

É um ótimo treino contra a timidez. (Que não é meu caso, acredite ou não. Eu sou misantropa, introvertida, mas isso não é sinônimo de timidez. Já fiz cada coisa na vida… e talvez seja genético. Outro dia li uma pergunta no Quora.com, perguntava por que japoneses e chineses são tão tímidos, e a resposta mais votada era alguém falando que não sabia sobre chineses, mas no caso dos japoneses, você não pode falar que um povo que adora karaokê e cosplay seja tímido).

No Avistar ou em outros momentos o que você tem que fazer é fortalecer estes pensamentos: (1) o outro é alguém razoável, (2) não tem nada de errado comigo e, no caso do Avistar, tem este (3) as pessoas estão aqui pra conversar uns com os outros. Você pode conversar com quem quiser.

 

Aproveite o after hours

O after hours é algo bem informal e a maioria das pessoas vai pros mesmos lugares. Nos arredores do Butantan tem vários botecos e bares universitários. Alguns como o Picanha são maiores e com música ao vivo (e alta). Se você quer participar, pergunte pras pessoas se elas vão sair pra beber à noite e peça pra te mandarem uma mensagem no celular quando estiverem indo. Peça pra mais de um, a pessoa sempre pode esquecer. Ou quando estiver chegando o fim do dia e você vê as pessoas saindo, pergunte se elas estão indo pro happy hour e vá junto.

Se você não bebe, também pode ir. No sábado por exemplo eu estava de carro, só tomei água e saí correndo antes do estacionamento fechar à meia-noite.

 

Várias tribos

O evento é ótimo e todos são amigos, mas é claro que há muita variedade. Encontre as pessoas com quem você tem sintonia de valores, não se incomode se o outro pensa diferente de você. Ou, se você achar que tem espaço pra isso, pode até ter uma conversa civilizada (não uma discussão ou provocação, perguntar com respeito mesmo) por que o outro pensa de tal forma.

Eu consegui conversar com várias pessoas sobre a ideia de falarmos cada vez mais de preservação, sobre como nossa atuação em redes sociais influencia a comunidade, que a gente pode diminuir a vibe por lifers e fotão e colocar a conservação mais em evidência. Várias pessoas no começo me falavam que não há o que fazer, mas depois de eu explicar, concordaram que muitas pessoas falando a mesma coisa podem influenciar o grupo.

 

A Serra do Amolar e o Lord do Pantanal

Com essa história de querer conversar o máximo possível com as pessoas, além de não assistir a palestras não passei pelos estandes, então deve ter muita coisa boa que perdi. Mas imagino que todos que ouviram o Thomaz Lipparelli ou o Marcelo Calazans falarem sobre a Expedição Serra do Amolar ficaram impressionados. Pantanal, Corumbá, seis dias, sendo quatro dias completos em campo num barco hotel com muito conforto, incluindo 16 barquinhos auxiliares para duas pessoas. All inclusive por R$ 3.500 (no Avistar foi vendido com desconto a R$ 3.000).

Além da parte passarinheira e de avistamento de mamíferos, há uma baía de águas límpidas, no estilo de Bonito, ótima para snorkeling.

A expedição com certeza é incrível, mas o que mais me interessou foram os planos pro Instituto Serra do Amolar. Parcerias com diversas instituições dedicadas ao estudo da fauna brasileira, para que eles possam usar a área para pesquisa, estudo do meio, congressos, divulgação pro público leigo, de um jeito que o Fabio Olmos falou que é comum em outros países, mas ainda não existe no Brasil.

Pela primeira vez em vários anos, tive vontade de voltar a trabalhar. Estou começando a conversar com o Thomaz, talvez a gente se acerte, até coloquei meu currículo de volta no heart3.

Acho que eles não têm um site sobre a Expedição, mas dá pra ter uma ideia vendo este link: http://www.lorddopantanal.com.br/o-lord-do-pantanal/. O barco Lord do Pantanal foi usado para pesca esportiva, mas eles têm planos de diminuir cada vez mais as atividades de pesca e ficar só com o turismo de contemplação, fotografia.

Este é o folder da expedição. Pra ver o PDF clique aqui. Tem uma saída lotada, outra quase lotada. O Jarbas Mattos vai guiar um dos passeios, de 11 a 16 de novembro, não sei se ainda tem vaga, mas se quiser fazer um passeio com um guia especializado é uma ótima oportunidade. As saídas normais do Lord só têm guias mateiros.

 

Dicas de destinos do Fabio Olmos

Eu pagaria uma mensalidade ou anuidade pra ter acesso às dicas de viagens do Fabio Olmos. Ele faz muitas viagens legais e tem um grande expertise em descobrir ótimos destinos a preços módicos, às vezes metade do que você pagaria se fosse por uma agência. E consegue isso graças a muitas horas de pesquisa, ou seja, seria bem justo ele receber por isso. Perguntei se ele já pensou em fazer, mas ele não tem tempo pra isso, daria muito trabalho. Eu deveria ter começado a gravar assim que ele começou a falar de viagens, em vez disso, só tenho umas poucas anotações no celular. Enquanto ele não tem o serviço de assinatura, vou compartilhar o que ouvi:

Cuba: “vocês precisam conhecer Cuba, é muito legal, vão antes que vire capitalista. As opções de acomodação são poucas, e os hotéis do governo são o tipo de lugar que eles podem te servir um pudim, você pede colher, eles dizem que não tem colher. Mas há opções muito boas de acomodação nas casas das pessoas. A Rita encontrou pelo birding pal um guia excelente, o Orestes Martinez, conhecido como Chino Zapata. Nossa viagem custou algo como US$ 4.000 por 12 dias para o casal.” https://cubabirdguide.com/guides.html

Ver o leopardo-das-neves no Himalaia, em Ladakh: Fabio contou que foi uma das viagens mais incríveis que ele e a Rita já fizeram. US$ 5.000 all inclusive para um casal, com uma equipe pra cuidar de toda infraestrutura de um passeio num lugar que não tem infraestrutura. Além do próprio leopardo, que eles conseguiram ver mas só de luneta, falou que estava cheio de outros bichos nas trilhas, inclusive Golden Eagle, cabras, e vários pássaros. O diferencial é ir com o cara certo: Jigmet Dadul. Encontrei este contato dele: https://www.facebook.com/jigmet.dadul.5 e um trip report com ótimas fotos: https://www.wildimages-phototours.com/reports/snow-leopards-ladakh-trip-report-2017/. Eles foram em fevereiro, mas acham que o melhor mês é abril.

Fabio também recomenda muito a escalada até o Kilimanjaro: http://www.oeco.org.br/blogs/olhar-naturalista/27475-subindo-o-kilimanjaro-atras-das-ultimas-neves/

Falou também das Fauklands, Colômbia, Equador, está estudando Cabo Verde. Mas esses não tenho mais detalhes.

 

Críticas ao turismo e guias brasileiros

Não vou citar nomes, mas durante o evento algumas pessoas me falaram sobre situações em que os guias ornitológicos brasileiros têm orçado passeios bem caros (caro no nível de 5.000 euros por uma semana, só a parte do guia, sem os custos de logística).

O trabalho do guia é valoroso e ele tem direito de decidir sobre o preço. Mas queria dizer que como cliente, eu sempre comparo com outros destinos, especialmente os internacionais e sei que vários colegas pensam da mesma forma. O custo-Brasil é alto, mas essa sensação de que você está sendo explorado no preço te leva a olhar pra outros destinos fora do Brasil. Fica a dica para os guias.

 

Cuidado com seus pertences

Soube de uma coisa chatinha. Furtaram a mochila de um dos palestrantes estrangeiros, com o notebook dele. Foi uma questão de minutos, de repente ele olhou e a mochila não estava mais lá. Me falaram que uns dois anos atrás também furtaram um notebook. Já tinham falado pra essa palestrante não dar bobeira com a mochila, e esse palestrante já esteve no Brasil outras vezes, sabia que aqui é preciso tomar cuidado. Mas infelizmente aconteceu.

Neste ano tinha uma chapelaria, talvez nos outros também tivesse. O clima do evento é bom e tranquilo, mas não descuide dos seus pertences, afinal não deixa de ser um parque público com muita gente circulando.

 

Duração das palestras

Não assisti às palestras porque fui com o objetivo de aproveitar o tempo pra conversar com as pessoas. Me falaram que muitas palestras foram bem legais, mas vários palestrantes disseram que acharam o tempo curto demais. 15 minutos de apresentação, 5 pra perguntas. Em outros anos era meia hora. Se mais pessoas tiveram essa percepção de que foi curto, quem sabe nos próximos volte a ser meia hora.

 

Divulgue seu trabalho no G1

Falei sobre isso com algumas pessoas e mandei links, mas publico aqui também. Faz anos que o G1 tem sem mostrado um portal com espaço pra divulgação da natureza. Se você tem feito algum trabalho a favor da natureza, entre em contato com o G1, quem sabe eles decidem publicar?

Por exemplo, a seção Você no TG já falou sobre dezenas de birdwatchers e fotógrafos. Comigo foi assim: a repórter enviou algumas perguntas, respondi, selecionei fotos e mandei. Eles escolhem os trechos de texto e as fotos que vão entrar.

Eu Divulgo Natureza: Você no Terra da Gente, mar/17, por Claudia Komesu

Não sei se a Ananda ainda é um dos contatos, aqui tem vários outros:

http://g1.globo.com/vc-no-g1/noticia/2015/06/vc-no-g1-como-enviar-video-foto-e-mensagem-para-tv-globo-e-o-g1.html

 

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)