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  • Texto e foto: João Marcelo da Costa

Observação de Claudia Komesu, editora do Virtude:

este post surgiu de uma conversa no Facebook, em que eu explicava que não tenho atração por competições de quem vê mais espécies, que ultimamente tenho feito um slow birdwatching, ou seja, passar muito tempo observando uma ave só, ainda mais se tiver luz e cenário bonito. A Claudia Covolan e a Silvia Linhares disseram que elas também se sentem assim, e o João Marcelo disse que ganhava de todo mundo nessa história de slow birdwatching. Após alguma insistência ele concordou em contar o motivo, e apareceu esse texto tão bonito que pedi permissão para compartilhar.

Se você sempre se maravilha com a beleza das aves, sem se importar se é uma espécie rara, e não se identifica com as competições por número de espécies, pontuação no Wikiaves ou “Curtir” do Facebook, vai gostar bastante deste texto.

O João Marcelo é o dono da famosa RPPN Guainumbi, localizada em São Luis do Paraitinga, entre Taubaté e Ubatuba. Um lugar muito legal para passarinhar, com dezenas quilômetros de trilhas internas, além de ficar do lado do Núcleo Santa Virgínia – Parque Estadual da Serra do Mar. Já fui passarinhar lá várias vezes e neste ano quero voltar logo. No Virtude há vários posts sobre a Guainumbi, inclusive do Super RG – um jogo de cartas com as aves da Guainumbi.


 

Vamos lá.. rs Sou ansioso por natureza, tenho TDAH, Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

Gente assim é ansiosa, quer tudo para ontem, faz mil planos ao mesmo tempo, tem insônia por causa deles e é capaz de no outro dia mudar de ideia e começar tudo de novo e de outra maneira…

Quando comecei a fotografar aves, na época do site AvesBrasil ainda, tive uma espécie de surto psicótico. Minha vontade de conhecer mais e mais espécies era absurda, a ponto disso virar uma batalha, um objetivo quase que religioso, quem sabe conhecer todas as aves de São Paulo ou do Sudeste ou do Brasil… e queria rápido, para ontem…. adrenalina pura.

Um dia cansei, nem sei o motivo. Sem planejamento nenhum fui fazer umas trilhas na Guainumbi e não levei mais a câmera. Foi um dia realmente especial. O fato de não estar focado em registrar imagens raras ou espécies novas me fez olhar mais ao redor e vi o sabiá-laranjeira mais lindo de minha vida, vi plantas que fazia tempo que não dava atenção e consegui ouvir sons da mata e sentir cheiros que não sentia fazia anos…

Desde então, levo a câmera onde vou, por segurança (vai que aparece uma harpia né…rs), mas dificilmente faço uso do equipamento, gosto de olhar, de ver o comportamento e adoro ver as espécies que não tenho mais muito interesse fotográfico mas que as amo, como fossem membros da família, como os periquitos-ricos da Guainumbi…

Hoje, eu gosto mesmo é de babar. Fico vendo o passarinho até ele ir embora. Domingo passado, um filhotão de capitão-de-saíra veio me conhecer. Ele estava bem no alto, ficou me olhando bem nos olhos e foi descendo, descendo, descendo, super curioso. Ele me olhando e eu olhando para ele com lágrima nos olhos e um nó na garganta… isso é muito bom.

Babo de ver um urubu, babo abastecendo o carro ao ver um bando de periquitões-maracanã comendo frutos de jerivá na frente do posto, a ponto de deixar o carro sozinho, porta aberta e só me lembrar que existe carro, posto, gasolina, na hora que os bichos decidem voar e ir embora…

Agora, quero trabalhar com soltura de animais silvestres. Passei a semana inteira babando de ver um gavião-carijó jovem que foi levado a clínica com encefalite devido a um trauma. Mediquei por 5 dias, o bicho só rolava em círculos e hoje pude devolvê-lo para a natureza, fortão, lindo, cantando alto. Daí eu não só babo como choro.

Eu adoro fotografia, mas gosto mesmo é de babar, babar muito….rs.

Claro que gosto de ver espécies novas. O novo surpreende, te traz outras realidades, mais experiência e emociona. Existem várias espécies e lugares que desejo muito conhecer um dia, como a RPPN Cristalino e o Pantanal Norte, mas tudo hoje é de uma maneira mais leve, agradável, lenta e portanto, pelo menos para mim, mais saborosa, pois, prato bom a gente come aos poucos…