birdwatchers

 

  • Texto e foto: Claudia Komesu

Compartilhei no Quero Passarinhar reflexões sobre o slowbirdwatching, e muitas pessoas comentaram o texto, contando um pouco de suas próprias experiências e a forma como enxergam o birdwatching. Textos muito bonitos, e que mostram a riqueza das vivências.

Vários colegas defendem a postura sensata e cordial de “tento não julgar o que meus colegas fazem, cada um é cada um”.

Neste post gostaria de falar por que discordo dessa ideia, e por que escrevo coisas rudes como “pra mim, quem não se importa com preservação da natureza é um birdwatcher de meia tigela”.

Pra começar, o que é ser um birdwatcher? O US Fish and Wildlife Service, o departamento dos Estados Unidos que a cada cinco anos realiza uma grande pesquisa sobre os hábitos das pessoas que fazem atividades relacionadas com a natureza (incluindo, infelizmente, a caça esportiva), define birdwatcher como a pessoa que tenta se aproximar e identificar as aves. Pode ser no seu jardim, nos arredores da sua casa, pode ser em pequenas ou grandes viagens.

Minha avó adorava ficar sentada no quintal no fim do dia, vendo as aves passarem pelo céu. Mas ela não era uma birdwatcher. Para o US Fish and Wildlife Service, o birdwatching exige um pingo de espírito científico, o querer saber pelo menos o nome da ave, e acredito que essa é uma boa definição para diferir birdwatchers de outras pessoas que apreciam a natureza.

Gosta de olhar as aves, fica reparando no que elas fazem, quer ver mais de perto, começa a se perguntar “que ave será essa? Por que ela está fazendo isso?”, pronto, agora é birdwatcher.

O observador de aves, que no Brasil se tornou sinônimo de fotógrafo de aves, tem na sua origem essa curiosidade em observar o comportamento das aves e tentar entendê-las. Binóculo, caderneta e um guia de campo são os acessórios típicos de um birdwatcher.

No Brasil é diferente, vocês sabem. Aqui a maioria dos birdwatchers tem uma câmera. Não temos tradição, como Estados Unidos ou Europa, lugares em que milhões de pessoas são birdwatchers há gerações. Como a gente sabe o que é ser um birdwatcher?

O Wikiaves é nossa maior referência do que é ser birdwatcher, e ele segue uma fórmula valorizada em qualquer lugar do mundo: quantidade de espécies fotografadas (quem tem a maior Life List), votos para fotos mais bonitas, destaque para as aves mais raras.

Pelo Wikiaves aprendemos que o que é valorizado na observação de aves é quantidade de espécies registradas, raridade das espécies, e fotonas de perto, no aberto, com penas bem definidas.

Nada de errado para um observador de aves, é assim no mundo todo.

Mas estamos no Brasil, século XXI. Há muito mais informações sobre a fragilidade da ecologia do que havia no século XVIII, quando o hobby começou. A natureza vai mal… nossa gestão governamental sempre foi muito próxima do agronegócio, mineradoras, empreiteiras, e bem distante da ideia de pesquisa científica, riquezas medicinais e cosméticas, ecoturismo. E assim riquezas incríveis vão dando lugar a pasto e soja, não há valorização da conservação das áreas naturais, parques têm o budget cada vez menor, não há apoio federal para programas de proteção de espécies ameaçadas, nossa lista de espécies extintas vai aumentando.

Watcher significa observador. Mas também tem o sentido de sentinela, vigia.

Nós somos birdwatchers. Será que em vez de apenas observarmos, não temos a obrigação moral de vigiar e defender esses camaradinhas que nos trazem tantas alegrias, e que não têm como se defender sozinhos?

Acredito que no século XXI, o sentido de birdwatcher tinha que ser expandido. Ninguém pode alegar inocência, que não sabe que a natureza sofre, que animais são extintos, que não há políticas favoráveis, pelo contrário, o lado interessado na destruição dos habitats é forte, rico, e faz muito lobby no Congresso.

A destruição da natureza é um dos problemas do mundo. Além de desigualdade social, corrupção, falta de investimento na educação, violência, etc. Mas nós somos birdwatchers, isso não coloca a preservação da natureza em outro patamar? Somos nós que andamos pelas estradas, pelas trilhas, nós sabemos o que há de precioso e muitas vezes invisível para quem não é birdwatcher. Mesmo nos lugares como brejos, beiras de estrada, lugares que não abrigam espécies ameaçadas de extinção, nós sabemos como há vida nesses lugares.

Por isso ouso falar que um birdwatcher que não se preocupa com preservação da natureza é um birdwatcher de meia tigela.

Certo. Mas o que configura se preocupar com preservação?

Aí vai de cada um, e nesse ponto eu acho errado julgar individualmente. Eu nunca falaria para alguém “você não faz o suficiente”. Cada pessoa faz sua análise de consciência, o balanço do que o birdwatching significa em sua vida, o quanto é algo importante, proveitoso, prazeroso… e o que você está fazendo para retribuir.

Ao mesmo tempo, também não acho certo dizermos que só de fotografar a pessoa já está ajudando, porque a verdade é que só fotografar e não fazer mais nada tem um impacto pequeno na vida das aves. É verdade que ao visitar um parque, a pessoa já está ajudando a natureza, por valorizar aquele lugar, às vezes divulgar, em alguns lugares pagar ingresso. Se você é um visitante esporádico, concordo. Mas birdwatchers têm uma vivência muito mais intensa com a natureza, nós aproveitamos muito mais, passarinhar faz parte da nossa saúde mental e física, será que não deveríamos agir mais, retribuir mais?

Há várias ações possíveis. Há instituições idôneas como a SAVE Brasil, ou a SOS Mata Atlântica, o Greenpeace, ou a WWF que precisam de doações em dinheiro. Você pode se informar mais sobre cada uma delas, ver com quem mais você se identifica, e doar com regularidade.

Se você usa o Wikiaves, você deveria ser um contribuidor. O Wikiaves tem um valor científico e cultural inestimável, ele mudou o panorama do birdwatching no Brasil. Ainda que eu tenha críticas, e na verdade hoje em dia nem me animo a participar muito, desde que surgiu a possibilidade de ser um contribuidor eu pago anuidade num valor maior do que o sugerido.  O Wikiaves não tem apoio do governo ou de empresas, ele nasceu e cresceu graças ao trabalho genial do Reinaldo, e das almas boas dos moderadores. Ele é essencial para o birdwatching no Brasil. O mínimo que a gente pode fazer é pagar anuidade.

Você também pode escolher apoiar uma determinada RPPN, ou algum projeto específico de educação ambiental, de ciência cidadã, de proteção de espécies, de reflorestamento.

Você pode criar um projeto pessoal, por exemplo, de registrar a beleza e a importância de alguma área na sua cidade. Seu trabalho sistemático de registro e divulgação na forma de fotos e vídeos pode ajudar a valorizar ou salvar aquela área. Há parques nos Estados Unidos que foram criados com o apoio do trabalho de fotógrafos que registraram e depois conseguiram criar uma opinião pública favorável de que aquele lugar precisava ser preservado.

Você pode ter uma chacrinha em que você decide reflorestar, plantar árvores frutíferas, colocar cerca contra o gado. Você está ajudando as aves.

Você pode divulgar a observação de aves e a necessidade de nos importarmos com a natureza no seu grupo. Seja um grupo de amigos, ou na sua comunidade, ou na escola do seu filho, em qualquer lugar em que pareça haver uma oportunidade.

Você pode participar ativamente do ebird.org, um site que compila milhões de listas do que as pessoas viram, e assim tem uma indicação de como está a variação das populações de aves no mundo. Essas informações ajudam a orientar ações de preservação ao indicar, por exemplo, um lugar em que parece ter havido uma queda grande da quantidade de tais aves, ou até o sumiço de determinadas espécies. Não é muito fácil, para eles gerarem informação científica precisam das listas dia por dia, no raio o mais preciso possível. É chato de fazer, mas é o tipo de coisa que traz o bem estar de saber que você está fazendo algo bom e que contribui para a sobrevivência das aves.

Você pode ser mais criterioso nas suas escolhas como consumidor. Nosso poder de compra, se dedicado em conjunto a apoiar ou boicotar algo, faria maravilhas. Tente dar preferência por produtos que causam menos dano ao meio ambiente, e evite os que causam maiores danos. Quer um bom exemplo? A gente sabe que a pecuária causa grandes desmatamentos no Cerrado e na Amazônia. Mas entendemos o que nosso consumo de carne bovina tem a ver com isso? Faz quatro anos que diminuí muito meu consumo de carne bovina, e agora voltei a comer mais porque comprei um freezer e faço compras no Zaffari, uma rede gaúcha que traz carnes do Sul, dos Pampas, lugares em que a criação de gado não destrói o meio ambiente. Há propriedades que trocaram a criação de gado por plantação de eucalipto, esse sim destrói tudo.

Ou então, li um artigo que falava de como aspargos peruanos estavam destruindo ambientes no Peru. Escrevi pro Natural da Terra, o lugar onde costumo fazer compras, pra falar do artigo e dizer como seria bom se eles pudessem não comprar mais aspargos peruanos. Os aspargos peruanos continuam lá, mas imagine se centenas ou milhares de pessoas tivessem mandado mensagens pra rede, o que poderia acontecer.

Um birdwatcher ou qualquer pessoa que se importe com a Mata Atlântica nunca deveria comer palmito juçara, seja no Brasil ou em outros lugares. As frutinhas do palmito são fundamentais para a sobrevivência de diversas aves, mas infelizmente o caule do palmito tem esse alto valor comercial. Palmiteiros se embrenham na mata e vão cortando tudo. Mesmo as marcas que têm certificado de procedência não são confiáveis, volta e meia é descoberto algum esquema de falsificação, de “esquentamento” da origem do palmito. Se você se importa com a natureza, não compre e não consuma palmito juçara.

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,pm-ambiental-apreende-palmito-extraido-da-mata-atlantica,1628035

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,caca-ao-palmito-jucara-ameaca-reservas-de-mata-atlantica-imp-,619843

Digite algo como “juçara mata atlântica palmiteiros apreensão”, e veja a quantidade de notícias, e isso só do que é descoberto e noticiado.

 

Ações pequenas como mandar uma mensagem, assinar uma petição, podem parecer bobagem e sem efeito. Em geral elas são, quando são poucas. Mas se acontecem como uma onda de dezenas, centenas, milhares, elas chamam a atenção e são capazes de trazerem mudanças.

Há diversas ações que podem ser feitas a favor das aves e da natureza. E acho que elas não deveriam se limitar a uma doação anual pra algum lugar – ainda que elas sejam muito importantes e poucos façam.

Não tenho a menor intenção de julgar as ações de cada um, não é uma caça às bruxas. Sob essa ótica, concordo com a opinião dos colegas sobre cada um, cada um. Eu não sei com detalhes o que cada pessoa faz da sua vida, mas vejo o que aparece de forma pública, em redes sociais, e aí acho difícil alguém negar que espécie rara, lifer, fotona causam muito mais repercussão do que os temas relacionados com conservação.

Acredito que no discurso coletivo, deveríamos sempre estar falando sobre ações a favor da natureza, para que que cada vez mais o birdwatching seja identificado como algo que vai além de lifer, foto bonita, likes e pontos.

Quem sabe num futuro próximo, birdwatching ganhe o sentido que vai além da observação, e possamos falar “somos birdwatchers. Somos os guardiões das aves”.