Panda 1 J. Patrick Fischer Creative Commons

 

Qual a importância do urso-panda na natureza?

Obs de Claudia Komesu, editora do Virtude-AG: duas semanas atrás conversávamos no Facebook sobre o slow birdwatching, ou seja, um birdwatching que não tem pressa ou metas de espécies. O João Marcelo da Costa escreveu este belo texto, e eu estou para publicar minhas reflexões também. Nessa conversa, a Tietta, alguém que curte muito a natureza sem nem precisar de câmera, falou do texto que ela escreveu em 2011 sobre o valor de um panda. Achei tão bom que pedi permissão para compartilhar no Virtude-AG 

Uma noite dessas eu estava em casa assistindo TV quando tocou o telefone. Uma amiga, Fernandinha, me pergunta: “qual é a importância do urso-panda na natureza?”

Eu fiquei muda por alguns segundos, pois aquela pergunta aparentemente simples era na verdade complexa demais. Perguntei o porquê da pergunta. Fernandinha é uma das melhores guias de turismo de Bonito, e sempre teve um grande amor pela natureza e pela cultura local. Estava conversando com alguns turistas que brincavam com ela sobre a “inutilidade” de alguns bichos, entre eles o urso-panda, que se desaparecesse não faria a menor falta. Ficou indignada com essa observação mas, como conhecia pouco dos hábitos do bicho, resolveu me ligar antes de argumentar. Provavelmente ela esperava que eu falasse sobre a história natural do panda, mas minha resposta foi um pouco mais profunda, e inspirou esta postagem.

Cada espécie que existe, de uma bactéria a uma onça, de um fitoplâncton a um beija-flor, é um milagre único da natureza, que nunca mais irá se repetir. Até hoje os cientistas buscam as respostas corretas para o início da vida, observam a evolução acontecendo e modificando as estratégias de sobrevivência de cada espécie, porém a única certeza é a de que as condições que permitiram àquela espécie se desenvolver e se reproduzir aconteceu apenas uma vez. Para quem prefere acreditar em criacionismo, o raciocínio é o mesmo. O “milagre divino” aconteceu uma única vez para cada espécie, depois nunca mais se repetiu. Portanto, para evolucionistas ou criacionistas, a natureza é o elo de ligação, com um fato único e imutável: quando uma espécie desaparece da Terra, é para sempre.

Cada vez que isso acontece, o mundo fica mais pobre. Nossa vida fica mais pobre. É como uma fotografia antiga que, ao ser exposta à luz inadequada, vai perdendo suas cores, até ficar desbotada e mal conseguirmos distinguir a cena que tinha sido registrada. Uma espécie que desaparece é uma matiz de cor a menos nesse mundo colorido, que aos poucos está ficando preto e branco.

Eu poderia discorrer também sobre os elos e a cadeia alimentar, sobre a óbvia importância ecológica do urso-panda que, comendo cerca de 40 quilos de bambu diariamente, ajuda a controlar a população desta planta que se espalha rápida e agressivamente pela paisagem, suprimindo o nascimento de outras espécies. Mas estas informações estão todas disponíveis na internet. (Além de bambu, o urso-panda também se alimenta de insetos, ovos e eventualmente preda pequenos mamíferos).

Porém, quero usar este exemplo para ressaltar a maravilha que temos e não percebemos, como é fantástica a diversidade de espécies, estratégias de sobrevivência em tão distintos ambientes e o quão frágil tudo isso pode ser. Reforçar a obrigação ética e moral que temos de respeitar e proteger cada uma delas, nossas companheiras de existência há milhões de anos nesse planetinha único. Sim, pois por mais avançadas que estejam as pesquisas astronômicas, só a Terra é capaz de manter a vida como conhecemos.

A cultura ocidental se desenvolveu acreditando que tudo o que existia tinha sido “criado” para seu uso e domínio, que os recursos seriam sempre infinitos. Hoje sabemos que isso não é verdade, e que ações locais desequilibram toda a cadeia natural. A tecnologia permite agricultura, pecuária, geração de energia e construção de cidades de forma sustentável, mas ainda preferimos destruir nossos recursos naturais em troca de lucro fácil e imediato, condenando não só a humanidade a um futuro difícil, mas também todos os seres vivos. Um exemplo disso é a insistência de nossos políticos em aprovar certas alterações imorais no Código Florestal, para benefício de poucos, aproveitando-se da ignorância e alienação de grande parcela da população brasileira.

O urso panda, as aves, as flores, todos são vítimas dessas escolhas erradas. E cada um de nós tem parcela nesse problema, com nosso consumismo desenfreado, nossa geração de lixo absurda, nosso uso de energia e água sem controle, crescimento escandaloso da população, etc. Somos parte do problema, quando deveríamos ser parte da solução.

A beleza de cada ser vivo está exatamente em ser único e ter acontecido na história natural uma única vez. Apreciar e respeitar cada espécie é ter consciência desse milagre, seja sob olhar evolucionista ou criacionista. Não importa. O importante é que todos saibam que cada espécie tem o direito de estar aqui, assim como nós.

Resumidamente, eu costumo citar os seguintes argumentos:

– Moral – tem o mesmo direito de compartilhar o planeta que nós

– Ético – devemos respeitar todos os seres vivos

– Ecológico – manutenção do equilíbrio natural

– Biológico – estamos co-evoluindo juntos

– Econômico – inúmeros e importantes serviços ambientais, ecoturismo, extrativismo

– Cultural – memória pessoal, folclore, alimentação

– Artístico – inspiração para poesia, música, escultura, pintura, cinema, fotografia…

Ou seja, se não somos capazes de criar uma vida, não temos o direito de destruí-la. E independente das milhares de espécies que já desapareceram naturalmente, a cada ano temos sido responsáveis por acelerar esse processo, eliminando da natureza seres incríveis como o dodô, por exemplo.

Quanto à Fernanda, nem esperou eu terminar de falar, pois já tinha entendido a mensagem. Argumentou com os turistas e cumpriu brilhantemente seu papel de educadora ambiental, levando uma reflexão a pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ponderar sobre este assunto. E você, já pensou sobre isso?

Para finalizar, um vídeo sobre pandas que fez muito sucesso na internet recentemente:

 

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