O que as manifestações têm a ver com birdwatching e natureza? Por que todo mundo deveria se importar?

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  • Texto e foto: Claudia Komesu, editora da Virtude-AG, mas opinando como pessoa física. Trechos de texto retirados do artigo de Clóvis Rossi, e do Facebook da Martha Argel, que tem sido uma grande inspiração e fonte de informações.
  • Moro em São Paulo, e não tenho participado das manifestações porque sou medrosa, tenho medo de apanhar da polícia. Mas estou acompanhando, e tentando apoiar e divulgar uma das coisas mais fabulosas que já aconteceu no país.

As passeatas públicas que começaram com o movimento Passe Livre tomaram outras proporções. Ontem, mais de 250 mil brasileiros de nascimento ou de alma foram às ruas expressar seu descontentamento. Brasileiros e simpatizantes organizam manifestações em 46 cidades pelo mundo afora. No domingo, em Dublin – Irlanda, 2 mil pessoas foram às ruas manifestar seu apoio às passeatas.

http://outraspalavras.net/blog/2013/06/17/lutas-brasileiras-repercutem-em-todo-o-mundo/

Descontentamento contra o quê? Qual é a reinvindicação, qual é a proposta, cadê a coerência, organização e transparência? Essas pessoas nem sabem direito por que indo às ruas, virou bagunça, estão quebrando a ordem e depredando patrimônio público, é só farra de universitário, é coisa de grupos políticos tentando desestabilizar o governo, isso não vai dar em nada.

Vocês já devem ter ouvido opiniões como essas, ou talvez até concordem. Eu vou dizer em que pontos concordo, e em que pontos acredito que essas pessoas estão erradas.

Realmente não há coerência, transparência e ordem. Uma das belas imagens dos criativos é mostrar a bandeira do Brasil sem o “Ordem”, só com “Em Progresso”. Não há organização e é mesmo tudo uma grande salada. Mas aí eu pergunto: você realmente acha que seria possível ser diferente?

Quais as reinvindicações? O que essas pessoas querem? Tanta coisa. Você está contente com o Brasil? Quem é capaz de dizer que tudo vai bem com o país?

Ter um caldo de insatisfações, em vez de uma reinvindicação organizada, elimina a legitimidade do movimento? Não. As manifestações passam o recado de “estamos descontentes, faz tempo”.

As pessoas são manipuladas? O tempo todo. Muitos grandes meios de comunicação querem destacar a violência e depredação do patrimônio público, para tentar invalidar o movimento e transformar as manifestações em coisa de arruaceiros. “Virou bagunça” é uma frase comum de ser ouvida. Quem se informa mais um pouco sabe que os arruaceiros são uma fração dos participantes.

E as pessoas também são influenciadas / manipuladas por ONGs que tentam dar um formato para as manifestações, que podem ser representadas em palavras bonitas como o jornalista Juan Arias escreveu, e Clóvis Rossi reproduziu:

[…] Juan Arias, o excelente correspondente de “El País”: “Querem, por exemplo, serviços públicos de primeiro mundo; querem uma escola que, além de acolhê-los, lhes ensine com qualidade, o que não existe; querem uma universidade que não seja politizada, ideologizada ou burocrática. Querem que ela seja moderna, viva, que os prepare para o trabalho futuro”.

Mais: “Querem hospitais com dignidade, sem meses de espera, onde sejam tratados como seres humanos, e querem, sobretudo, o que ainda lhes falta politicamente: uma democracia mais madura, em que a polícia não atue como na ditadura”.

“Querem um Brasil melhor. Nada mais.”

Esse é o tipo de manipulação que não me incomoda nem um pouco. Podem ser as palavras de líderes de ONGs, mas não deixam de ser o sentimento de todos. Mesmo os que podem estudar no exterior, ou serem atendidos no Albert Einstein, ou que nunca sofreram e nunca sofrerão nenhuma violência da polícia: precisa ser realmente mesquinho e sem coração para não desejar um Brasil melhor para todos.

“Quero ver o resultado nas próximas eleições”. Entenda: você não verá. As mudanças não acontecerão de repente, ou melhor, se acontecerem, será um milagre inesperado. Você sabe: estamos falando de 500 anos de corrupção, há uma máquina gigantesca e monstruosa que não vai se desmantelar fácil assim.

O que vai acontecer? Tudo será esquecido? Não, não será. Por causa da internet e das redes sociais, esse fenômeno inédito na história da humanidade, em que podemos ter informações e comunicação de uma forma incrível. Eu tenho certeza de que as manifestações não serão esquecidas.

Mas o que vai acontecer de fato? Ninguém sabe. Estamos num momento delicado e de incertezas. Ninguém é capaz de garantir quais serão as consequências das manifestações, mas há uma certeza: aqui e agora é o momento de ganhar autoconfiança, de começarmos a acreditar que mudanças são possíveis, de finalmente ter orgulho de ser brasileiro. Com o sucesso das manifestações, podemos começar a acreditar que é possível fazer algo contra a corrupção e todas as coisas erradas que acontecem no Brasil, inclusive o descaso com o meio ambiente.

Por isso, meus amigos do bem, digo que esta é a hora de apoiar as manifestações e dizer que não estamos contentes. Eu, e imagino que muita gente, não quer a revolução. Vou usar as palavras da valente Martha Argel para expressar esse sentimento:

“Não me incomodo em ter Dilma, Alckmin, Calheiros, Haddad, Cabral, Paes ou qualquer um que seja, nos lugares em que estiverem.

Desde que façam a coisa certa.

Desde que parem de aplicar o dinheiro de educação, saúde, meio ambiente e seguridade social em estádios, empreendimentos duvidosos e interesses de eikes, monsantos e quetais.

Não quero derrubar ninguém, porque não é questão de trocar seis por meia dúzia.

Eu quero que os que estão lá em cima, quem quer que sejam, criem vergonha na cara (ou comecem a ter medo dos manifestantes, tanto faz) e representem O POVO, e não que representem os gananciosos e vorazes.

Minha picuinha não é pessoal.”

Não sabemos qual o próximo passo, qual será o resultado dessas manifestações. Mas como tenho falado, uma coisa eu tenho certeza: quem diz que ela pode dar em nada errou, porque ela já deu um fruto. Estamos discutindo acirradamente assuntos que há duas semanas eram bem etéreos, estamos descobrindo a força das mobilizações, as redes sociais como instrumento essencial de convocação e disseminação de informações. Mesmo sem querer, todos que acompanham as notícias também ficam um pouco mais politizados, e talvez nossas próximas ações sejam de pessoas mais conscientes.

Faça uma ação a favor do bem do mundo: apoie as manifestações, fale com seus amigos e familiares que ainda se sentem atordoados ou sem saber o que pensar. Expliquem para eles que esse é o momento de ter fé e esperança num futuro melhor, diga que só o fato das manifestações estarem acontecendo já é um primeiro passo, e que sem saber, por não termos o distanciamento necessário, a gente está vivendo um momento importante da história do país, com a possibilidade de ser um momento de guinada.

Apoie as manifestações e continue acompanhando as notícias políticas, principalmente pela internet. Globo e Veja ainda são pouco confiáveis, talvez em algum momento se rendam.

Força e fé.

Um grande abraço a todos.

 

 

Ações a favor da divulgação do birdwatching e da conservação da natureza (+)