Ao ver uma ave rara ou um lífer muito desejado seus olhos viram, não sabe se continua olhando pelo binóculo ou tentar tirar uma foto? Você fica eufórico, fica sem ar, coração dispara, dá “pulinhos” de alegria, fazendo um tremendo barulho no mato, gritando, chama o colega mais próximo para mostrar à tão sonhada ave? Você já quase bateu o carro porque tava olhando para o céu tentando identificar um gavião diferente voando no centro da cidade? Pois é, são esses os sintomas de quem já teve ou têm o “orgasmo ornitológico”.

Inesquecivel encontro com a cabure-acanelado em Campos do Jordao SP, na companhia de Mariana Vabo

Inesquecivel encontro com a caburé-acanelado em Campos do Jordão – SP, na companhia de Mariana Vabo

 

Desde que iniciei na ornitologia já ouvia esse termo. A primeira vez que ouvi falar no orgasmo ornitológico foi em uma crônica publicada na Revista Atualidades Ornitológicas sobre um avistamento de gavião-de-penacho realizado pelo colega Douglas Kajiwara. A partir daí, passei a adotar a frase, era a melhor forma de descrever minhas emoções nos registros mais raros ou surpreendentes. É a denominação do mais alto grau de excitação dos sentidos (áudio, visual ou tato) de um amante de aves, porém não no contexto sexual.

A primeira vez que tive um orgasmo ornitológico foi em junho de 2009, durante um levantamento das aves de rapina na Reserva Biológica das Perobas, uma UC Federal de 8.716 ha localizada no município de Tuneiras do Oeste/PR, uma das mais importantes áreas de floresta do noroeste paranaense. Logo no primeiro dia de campo, já dada por encerrada à amostragem do dia, sem ver nada de muito interessante, resolvi conhecer uma área desmatada próxima da borda da mata. Assim que cheguei ao local, vi um vulto branco voando muito longe sobre a copa das árvores e desaparecer no horizonte verde, meu coração disparou. O único detalhe que pude observar foi a cor branca predominante da ave, pensei em algum Leucopternis ou até mesmo um Spizaetus. Curioso, segui em direção a ave e mal comecei a caminhar o bicho surgiu do meio da floresta, apareceu voando de frente para mim até pousar numa peroba-rosa seca a pouco mais de 40 m de distância. A ave era muito grande, imponente, coloração predominante branca, dorso escuro e um topete pequeno e negro. Neste instante fiquei nervoso, sem ar e gritei para um colega que estava próximo:

– É um Spizaetus melanoleucus caraaaa!

Gritei mesmo, ajoelhei e comemorei o registro foi a primeira vez que vi a espécie e naquela época até então nunca tinha visto nenhum bicho “legal”, só os comuns. Tive um verdadeiro orgasmo ornitológico, não sabia se tirava foto, observava, filmava ou tentava as três coisas. Tive alguns segundos suficientes para fotografar e filmar o bicho, até que então um Falco sparverius surge, começa a dar rasantes no gavião-pato e ele vai embora do local. Até então, não havia registros do gavião-pato para o noroeste do Paraná, e esse registro foi de grande importância para a Rebio das Perobas e marcou o início de minha carreira.

Encontro com gavião-pato na Rebio das Perobas em 2009

Encontro com gavião-pato na Rebio das Perobas em 2009

De 2009 até os dias atuais tive vários outros orgasmos ornitológicos, vi casal de gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) fazendo display, levei alguns rasantes e tive um boné arrancado por um tauató-pintado (Accipiter poliogaster), quase bati o carro voltando para casa tentando ver uma briga territorial de dois falcões-peregrinos (Falco peregrinus), ninho de arara-vermelha-grande (Ara chloropterus) em um paredão na beira da roovia, quse tropecei num ninho de mocho-dos-banhados (Asio flammeus), quase enfartei com uma caburé-acanelado (Aegolius harrissi), etc. E com o avanço da tecnologia até “orgasmos ornitológicos virtuais” estão sendo possíveis, foi isso que senti por exemplo ao ver a foto do fantástico registro do gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayanensis) mimetizando um gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) no Pará. Espero que muitos colegas tenham orgasmos ornitológicos múltiplos em suas andanças pelo Brasil, assim contribuindo com o conhecimento e conservação da nossa rica avifauna.

Registro excitante do urubu-rei no Parque da Ferradura em Canela-RS na companhia de Julian Stocker

Registro excitante do urubu-rei no Parque da Ferradura em Canela-RS na companhia de Julian Stocker

Ninho de arara-vermelha-grande em um paredao na beira da rodovia, Chapada dos Guiamaraes

Ninho de arara-vermelha-grande em um paredao na beira da rodovia, Chapada dos Guiamaraes

Femea de tauato-pintado vigiando o ninho, na companhia de Andrea Larissa

Femea de tauato-pintado vigiando o ninho, na companhia de Andrea Larissa

 

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