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Cada um tem o direito de curtir o birdwatching como quiser, mas se a observação de aves passou a ocupar um espaço considerável na sua vida, você tem a obrigação de se importar com conservação da natureza

  • Texto e foto: Claudia Komesu

O amigo Eduardo Franco pediu minha opinião sobre um post que ele escreveu, http://www.historiasdeobservador.com.br/2014/05/afinal-o-que-realmente-importa.html

Ontem à noite estava com os pensamentos bem focados em outro assunto (a história do Blurb e a humilhação de não ter livros sobre a natureza brasileira, entre quase 100 mil títulos, graças à postura atual do ICMBio, Fundação Florestal e secretarias municipais).  Li por cima e fui dormir pensando que o que realmente importa é o observador de aves atuar a favor do meio ambiente.

Hoje reli o texto, e descobri que essa é exatamente a mensagem do Eduardo: “Não importa se você olha, fotografa ou grava. O que importa é como você contribui para a conservação das aves.” Quando li por cima, e nos comentários sobre o post parece que algumas pessoas também pensaram assim, fiquei com a impressão de que o objetivo do texto era dizer que há vários tipos de observadores de aves, e que tudo bem. Essa também é uma das mensagens do texto, mas talvez a secundária.

Nos comentários tem a opinião do Daniel Esser, que pra mim é um poeta e filósofo: “Quem gosta de passarinho não tem regras. Muitos gaioleiros adoram passarinhos e, se tivessem oportunidade de conhecer a simples observação, provavelmente abandonariam as gaiolas. Existem os comerciantes, esses não gostam de passarinho, gostam de dinheiro. Talvez quem goste de pontos no Wikiaves também não goste de passarinho. Sei lá. Binóculos, câmeras, listas, nada disso importa. Os passarinhos é que são a razão de tudo isso, e o resto é bobagem e perda de tempo. Padronização é uma bobagem e parece coisa de fanáticos. Deixemos cada um se divertir e amar as aves como quiser”.

Ontem perguntei ao Eduardo se ele estava escrevendo o post em resposta a alguma polêmica, e se ele poderia me passar o link para eu ver o que tinha originado o post. Ele falou que não foi nada específico, são apenas coisas que ele lê de vez em quando. Coincidência ou não, ontem topei com um post de um colega biólogo contando como ele foi xingado por ter comemorado uns registros novos pro Estado.

Aqui poderiam entrar vários assuntos, mas vou focar em dois pontos: concordo totalmente com o Eduardo e o Daniel: o que realmente importa é como você contribui para a conservação das aves, e o importante é gostar de passarinho, se divertir e amar as aves como quiser.

Mas aqui eu divirjo de uma postura conciliadora. Não acho que as pessoas têm o direito de fazerem o que quiserem. Considero errado que um observador de aves esteja no hobby, praticando com intensidade, viajando, investindo em equipamento, passarinhando sempre, por digamos, há mais de dois anos, e não faça nada pela proteção das aves. Na verdade, pra mim é mais do que considerar errado: eu acho imoral.

Por quê? Porque isso não é amar as aves. As pessoas realmente têm todo o direito de se divertirem como quiser, da forma como quiser, seja apreciando as aves no quintal, só em parques perto de casa, ou viajando o país todo e pelo mundo em busca de lifers. Cada um curte como quiser.

Mas o que não consigo aceitar é a impressão de que para muitas pessoas a observação de aves é um jogo de pontos e status, mas só isso. Quem tem mais espécies registradas, quem consegue as fotos mais impressionantes, quem consegue mais likes e comentários nos posts. Você pode fazer tudo isso, cada um curte o birdwatching da forma que mais se molda à sua personalidade, tudo bem. Mas ficar só nisso? As aves não são quadradinhos coloridos para coletar durante o jogo e ganhar pontos: elas são seres vivos, espetaculares, e sofrem o tempo inteiro, no mundo todo, ameaças à sua sobrevivência.

Infelizmente as aves não têm como formar um exército de angry birds e lutar contra desmatamento, mineração, barragem, adutora, incêndios criminosos, prédios espelhados, loteamentos, caçadores de tráfico, idiotas com espingardas, palmiteiros. Elas apenas morrem.

Eu entendo que uma pessoa que não viaja e não investe em equipamento também não tenha um envolvimento profundo com questões de conservação da natureza. E não digo que não haja, claro que há. Mas em casos assim é mais provável que o grau de envolvimento seja menor.

O que eu não entendo é que as pessoas viajem pelo menos duas vezes por mês, gastem bastante com equipamento, passem muito tempo editando, postando e comentando suas fotos. E não façam nada pela sobrevivência das aves. Nesse caso a pessoa está mergulhada na observação de aves, mas não consegue sentir que têm qualquer ligação ou responsabilidade com a vida das aves, que após ticadas e fotografadas de perto, perdem qualquer valor . “Já tenho essa”.

É triste ver como tantas pessoas que têm centenas de fotos no Wikiaves nem pagam a anuidade optativa. No ano passado eram R$ 60, espero que seja reajustada. Desde que começou, sempre depositei o triplo do valor mínimo. Neste ano quando vencer em agosto farei o mesmo, apesar de passar meses sem subir fotos, e do desânimo com várias escolhas que o Wikiaves fez. Uma das que eu considero bem errada, e que pra mim influencia essa postura do birdwatching como um jogo: destaque na home para fotos mais votadas. Nenhum destaque para quem está fazendo levantamento na sua região, para quem está trabalhando em projetos de conservação, pra quem está inventando formas de ajudar as aves. Vocês podem dizer “Mas o Wikiaves é uma enciclopédia e banco de imagens”. Eu não aceito isso, dado o grau de apuros que a natureza sofre. Acho errado uma organização influente não demonstrar engajamento ostensivo, porque ela poderia influenciar milhares de pessoas a também se engajarem.

Obviamente essa postura de não se envolver com algo não é exclusividade dos observadores de aves brasileiros. Em qualquer campo você encontrará um pequeno grupo de pessoas que atua, uma maioria que não se envolve. Por que os observadores de aves deveriam ter mais responsabilidade na conservação da natureza do que as outras pessoas?

Porque amamos as aves. E dói doído fundo no coração ver pessoas que se aproveitam tanto da sua beleza e dos seus encantos mas não se importam se elas vivem ou morrem.

Não me importa que você seja louco por lifers, pontos e likes, tudo bem. Basta que seu envolvimento com o birdwatching tenha seu quinhão de contribuição para a natureza.

O que é contribuir para a conservação das aves? Como tudo, não há uma fórmula. Cada um dá o que tem. Quando a pessoa não dá nada, não é capaz nem de depositar uma anuidade de R$ 60 num site que ela aproveita intensamente, ou não é capaz de gastar 10 segundos para participar de uma petição a favor das aves, eu penso que é alguém muito vazio por dentro.

Vou fazer aqui uma lista de algumas ações possíveis bem fáceis:

– assinar petições a favor da natureza – em geral uns 10 segundos

– compartilhar alguma notícia importante ou campanha – 5 segundos

Desde as manifestações do ano passado políticos, mídia e tomadores de decisão prestam mais atenção nas redes sociais, compram monitoramento. Por volume somos capazes de chamar atenção para um tema.

– pagar a anuidade optativa do Wikiaves

– doar dinheiro para SAVE, SOS Mata Atlântica, Avaaz, RPPN, o que for da sua escolha

– divulgar a observação de aves e nossa riqueza de fauna sempre que puder, para amigos, colegas e desconhecidos. Se a pessoa demonstra interesse, fale do Wikiaves, se quiser pode indicar o Virtude que tem muitas informações pra iniciantes, fale sobre palmiteiros – e pra pessoa não comprar palmito, sobre desmatamento, obras. Nunca perca uma oportunidade de divulgar a natureza.

Há outras ações possíveis, que exigem mais empenho. O que você pode fazer depende do que você se sente à vontade para. Acredito que esse tipo de trabalho deve ser feito sem sacrifício, ou então dura muito pouco e não se repete. O ideal é buscar uma atividade ou ação que combine com sua personalidade e suas habilidades, una o útil ao agradável. Em geral num grupo você faz mais do que sozinho – mas para participar de um grupo você tem que sentir sintonia entre os membros e o objetivo do grupo. Não é algo muito fácil de encontrar, mas quando dá certo, é uma maravilha. Vejam o exemplo da Ecoavis, que faz divulgação em parques, aparecem em programas de TV, na Veja, divulgam intensamente o birdwatching na região de Belo Horizonte.

Outro exemplo: minha camarada companheira de aventuras, a blogueira e empresária Juliana Diniz. Ela sempre gostou da natureza, e mesmo antes de se envolver com o birdwatching, já falava da natureza. Sabem como? Num blog de moda, o Animal Chic, ela mostra como a natureza pode nos inspirar para fazer looks bacanas, e ao mesmo tempo leva conhecimento sobre bichos e lugares para passear. Faz uma divulgação da natureza para pessoas que talvez não estejam tão ligadas ao tema, mas podem começar a se interessar mais.

Gostaria muito que mais criativos se envolvessem com a divulgação da natureza, sem nem precisarem ser birdwatchers.  Algo que eu adoraria ver: as aves brasileiras divulgadas na moda, principalmente na forma de estampas com lindas ilustrações, estilos diversos. Roupas bonitas que a pessoa queira usar no dia a dia, não apenas camisetas que você só usa para passarinhar. E outras ideias para mostrar as aves pra quem nem imagina a riqueza que o Brasil tem.

Bom, apenas blogando. Cada um age como quer, segundo sua consciência. Quando falei das posturas que considero erradas, não pensei em ninguém especificamente, ainda mais porque não sei o que as pessoas fazem. Elas podem não participar de campanhas e petições, mas talvez ajudem bastante a natureza de outras formas, então eu peço para participarem, mas nunca vou encher o saco de alguém que não participa.

Mas na eventualidade de você ser alguém que ainda não pensava na sua responsabilidade com a natureza, e leu todo esse texto comprido, agradeço pela sua atenção. Nesse caso não importa o que você não fez até agora, apenas o que você fará a partir de hoje.

Não há uma fórmula ou uma medida do quanto você deve se envolver. Mas se a observação de aves lhe traz muitas alegrias, sua contribuição para a natureza não deveria ser pequena. Encontre algo em que você possa unir personalidade e competências e aja. A situação está ruim e a tendência é piorar, precisamos muito da maior quantidade possível de pessoas agindo pela natureza e pelas aves.

Obrigada e abraços a todos!

 

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