Slowbirdwatcher

Esta foto não é do Big Day, que passei em Brasília (não tenho o bom costume de tirar fotos do grupo, ou eu e meu guia), mas foi uns dias depois, em Pirenópolis.

 

“… É uma longa história, mas, basicamente apaixonei-me pelos pássaros (sic. Deveria ser ‘apaixonei-me pelas aves’). Isso não ocorreu sem uma resistência considerável, pois não há nada menos cool do que ser observador de pássaros, e qualquer indício que revela uma paixão verdadeira não é, por definição, cool. Mas, aos poucos, mesmo relutando, fomentei essa paixão e, se metade da paixão é obsessão, a outra metade é amor.
(…)
meu amor pelos pássaros se tornou um portal para uma parte importante e menos autocentrada em mim, que eu nem sabia existir. Em vez de continuar viajando por aí como cidadão do mundo, curtindo algumas coisas, descurtindo outras e guardando envolvimentos para o futuro, fui obrigado a confrontar uma parte de mim que eu tinha de aceitar na íntegra ou rejeitar absolutamente. É isso que o amor faz com uma pessoa.
(…)
Quando ficamos trancados em nossos quartos, bufando, caçoando ou nos sentido indiferentes, como fiz durante tantos anos, o mundo e seus problemas parecem desafios impossíveis. Mas quando saímos às ruas e temos relacionamentos reais com seres reais, ou mesmo animais reais, há o perigo bastante real de amarmos alguns deles. E quem saberá dizer que rumo a vida tomará?” [2011]

Jonathan Franzen, do excelente Como Ficar Sozinho.

 

Pra usar as palavras do Franzen, é uma longa história, mas basicamente passarinhei no estilo clássico (em busca da maior quantidade possível de lifers) de 2009 a 2011, e então comecei a me questionar o que é o birdwatching. Não conseguia mais me identificar na busca por lifers, perdi a conexão de alma com o Wikiaves, que até então era uma parte fundamental pra mim da atividade. Nem tinha mais certeza se eu era mesmo birdwatcher. Continuava apaixonada pelas aves, mas me sentia sem pátria.

Em 2011 meu pai teve que fazer uma cirurgia cardíaca (ele se recuperou 100%, mas é sempre um baque), eu decidi que era hora de deixar a Consultoria (pra quem não sabe, vivo o conto de fadas de ter um marido que me falou “Quer parar de trabalhar e fazer só o que você gosta?”, e é por isso que às vezes me apresento como aposentada), comecei a montar o Virtude-ag para divulgar o birdwatching para iniciantes, tentei começar um movimento pra ter a divulgação da natureza acima da luta por pagamento de direito autoral em dinheiro, e fracassei. Vi que não seria fácil unir as pessoas num movimento pra divulgar a natureza, e passei a articular o Virtude contando com a boa vontade de várias pessoas queridas que escreveram reportes especialmente para o site, ou ofereceram para compartilhar material dos próprios blogs.

Na questão dos lifers, não é que eu não goste de ver uma ave que eu nunca tinha visto, de passarinhar em um bioma novo. Eu gosto, é lindo. Mas também é caro, em vários sentidos. Não é só pelo preço do passeio, há um custo humano alto. Descobri que pra mim, mais importante do que ver uma espécie nova era ter momentos de puro prazer na minha atividade favorita. Eu não tenho religião, mas acredito em coisas que não são materiais, e quando passarinho é como me sentir mais próxima de Deus, da bondade, da pureza. Por isso no geral ou passarinho sozinha, ou na companhia de pessoas pra quem passarinhar também é essa leveza.

Não corro mais atrás de lifers, e me declarei slowbirdwatcher, do “Orgulho Lesma” :).  Depois vi que o termo também é usado por alguns europeus, mas se você joga no Google slowbirdwatching, as primeiras referências são do Virtude-ag. http://virtude-ag.com/apenas-blogando-e-possivel-ser-birdwatcher-mas-nao-ser-movido-por-lifers-fev15-por-claudia-komesu/

 

Uma nova dimensão paras as fotos. O prazer do álbum de figurinhas.

Sou uma lesma pouco produtiva. Mas tenho uma coleção grande de fotos, especialmente das aves mais comuns. Em setembro comecei a conversar com o Bruno Lima, o ornitólogo que está liderando o movimento para criar uma Unidade de Conservação em Itanhaém e Mongaguá. http://virtude-ag.com/eu-divulgo-apoie-a-criacao-da-uc-restingas-do-rio-preto-e-aguapeu-em-itanhaem-sp-380-especies-de-aves-set15/

Ofereci pra ajudar a criar um material de divulgação, algo como uma revista no ISSU. Ele passou a lista das aves já registradas no local, eu só ia colocar algumas fotos de exemplo, mas comecei a montar o arquivo e descobri que tinha muitas fotos. Das 381 espécies da lista, tenho 343, muitas com imagens do macho e da fêmea. Tenho imagens de todos os beija-flores e pica-paus da lista, todos os thraupideos, quase todos os tiranídeos. Foi lindo ir montando as páginas e ver as espécies uma do lado da outra, em alguns casos deixando bem evidente as semelhanças entre elas.

Não gosto da ideia de acumular lifers só por orgulho pessoal, nada contra quem faz, mas isso não me trazia satisfação. Mas pensar que as minhas fotos poderiam ajudar na divulgação da natureza, em tornar mais concreta a relevância de um local foi algo que me deixou feliz. O Bruno está adorando, e disse que quando voltar pro Brasil no final do ano vai tentar buscar uma forma de imprimir o material para divulgar em escolas.

Nem todas as fotos são boas, e não tenho nenhuma necessidade de que sejam todas fotos minhas. Mas não sei se você tem ideia de como é difícil conseguir fotos dos outros. Algumas pessoas são contra ceder fotos, outros não são contra, mas não estão dispostas a gastar algumas horas procurando as fotos, eventualmente tendo que procurar e enviar o arquivo original porque é preciso fazer outro recorte de proporção. Adoraria que as pessoas me falassem “Você está sempre envolvida em algum material de divulgação. Da próxima vez que fizer, conte com as minhas fotos. Entre em contato comigo, me mande uma lista das imagens que você precisa, se eu não estiver viajando em alguns dias te envio. É uma alegria saber que minhas imagens vão ajudar a valorizar e talvez proteger algum pedaço da natureza”.

Montar o arquivo pra UC de Itanhaém trouxe mais um sentido pra fotografia. Desde que comecei a passarinhar, só uso a câmera, nem levo meu binóculo pros passeios. Mas agora há um novo prazer, sempre que vejo uma ave fotografo com mais carinho ainda, penso coisas como “você, amiguinho, pode fazer parte de um próximo material de divulgação que vai ajudar a valorizar a natureza. Chega mais perto, ou deixa eu chegar mais perto, pousa num galho bem bonito, fica mais um segundo, se move pra um lugar com mais luz”.

E foi assim que reencontrei meu prazer de colecionar imagens :)

Pra ver a revista no ISSUU, acesse http://issuu.com/claudiakomesu. Não consigo dar o link direto porque estou apagando e subindo arquivo novo conforme consigo mais fotos. Se quiser contribuir com as figurinhas que estão faltando, ou pra melhorar alguma foto minha que está ruim, fale comigo pelo Facebook ou por claudia.komesu@gmail.com. Inclusive sinta-se livre pra mandar a tal mensagem tão esperada, me dizer que sempre que eu tiver algum projeto de divulgação, posso te mandar uma lista e você vai se esforçar pra separar as imagens dentro de alguns dias.

 

O Big Day de uma slowbirdwatcher

 

Eu não sabia o que pensar do Big Day. Descobri que gosto de passarinhar como lesma, então não me envolvi no Global em maio, e não estava animada com a ideia do Big Day Brasil de 10 de outubro, mesmo vendo meus amigos fazendo times, criando nomes. Eu sei que meus amigos e muitas pessoas participam pelo orgulho de contribuir pra ciência cidadã, por ser lúdico e divertido, não com sentimentos agressivos de competição. Mas eu só não conseguia ver como uma lesma como eu podia contribuir.

Acho que se eu não teria marcado um passeio só pra participar do Big Day, mas aconteceu do Big Day ser num dia que eu já tinha marcado um passeio com o Jonatas Rocha. Não planejamos nada de especial, não fizemos aquele esquema de começar a passarinhar à meia-noite do dia 10, ou de tentar percorrer um monte de lugares. Começamos com o dia bem claro, paramos pra tomar café da manhã, depois interrompemos nas horas mais quentes do dia, passamos um bom tempo sob uma árvore papeando com colegas, depois fizemos almoço longo, voltamos a passarinhar só depois das 15h30. E mesmo assim, graças à super-audição do Jonatas, pudemos registrar 93 espécies. Claro que se dependesse de mim seria muito menos, mas o Jonatas é fera, ele ia ouvindo, eu ia marcando num papel, e depois passei pro Ebird. A cada novo nome pra lista, comemorávamos. Gostei muito de participar, e com certeza vou participar da próxima edição. Estou aguardando os números consolidados de participantes, mas já sabemos que as pessoas mandaram centenas de listas, que somaram 1.144 espécies de aves observadas ou ouvidas em apenas um dia.

Eu não circulo pelas redes sociais, mas me parece que o clima geral foi de orgulho nacional, de todo mundo se sentindo contribuindo pra valorizar o Brasil, nada de competição entre grupos. Mesmo pro Big Day Global de maio, o resultado foi lindo, o Brasil ficou em segundo lugar em quantidade de espécies registradas, atrás apenas do Peru, um país que tem uma longa tradição de valorizar o birdwatching, e muitos locais com infraestrutura turística para birdwatchers nas regiões Amazônicas, algo que o Brasil não tem.

Só o primeiro lugar importa? A gente é um país em que o governo despreza a natureza, não investe nada em ecoturismo. Pra você ter uma ideia, na Espanha o governo dá dinheiro para ajudar os guias ornitológicos a comprarem um carro. Fomos pra lá na Páscoa deste ano, o carro do nosso guia tinha um cromo escrito “Este carro recebeu ajuda de custo no valor de x mil euros (não lembro o valor exato, acho que era algo como 4 mil euros), do programa de incentivo ao turismo”.

Somos o país com maior biodiversidade do planeta e nossas políticas públicas consideram isso um problema, um estorvo pra soja, gado, madeireira, mineração e empreendimentos imobiliários. Os birdwatchers nunca tiveram apoio público, pelo contrário, estamos lutando pra que não aconteçam mais casos em que somos proibidos de fotografar num parque público porque nossas câmeras chamam a atenção de um segurança, ou porque o gestor mandou abordar e proibir pessoas com câmeras grandes.

E mesmo assim, num único dia, somos capazes de registrar mais de 1.100 espécies de aves. Que importa não ser o primeiro na lista global de maio? Nessas condições em que vivemos, qualquer ação que promove a natureza sempre é campeã.

 

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