Inspirado no ótimo texto do Willian Menq, e incentivado pela Claudia Komesu, registrei aqui algumas das minhas experiências mais marcantes no mundo das aves.

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Urubu-rei (Sarcorhamphus papa)

 

Tive a sorte de iniciar na observação de aves ainda quando pequeno. E se um momento inesquecível para um adulto é bom, imagina para uma criança que consegue fantasiar tudo de maneira invejável! Hoje acho que “coleciono” muito mais momentos do que figurinhas e, embora elas estejam quase sempre relacionadas, o álbum aos poucos vai sendo preenchido e as figurinhas se repetindo, enquanto os momentos vão surgindo sempre de maneira única e especial.

Quando criança me recordo de observar nos arrozais onde cresci os mais variados tipos de garças de coloração branca. Mas pra mim eram apenas duas espécies, a garça-branca-grande (Ardea alba) e a garça-branca-pequena (Egretta thula). Mas algo me deixava muito confuso, já que as garças menores apresentavam os bicos e os tarsos de formas e cores diferentes e, pra piorar ainda mais, em uma determinada época algumas delas ficavam com uma coloração amarronzada. Eu pensava: “será que são umas jovens e outras adultas?”. Até que consegui descobrir que na verdade havia ali uma terceira espécie, a garça-vaqueira (Bubulcus ibis). Sem dúvida esse foi um dos meus primeiros orgasmos ornitológicos, na época com uns 12 anos de idade!

Daí em diante os momentos de orgasmos inesquecíveis não pararam mais e foram os mais diferentes tipos. Recordo-me que estava voltando pra base de pesquisa em que eu ficava no oeste de Tocantins com mais dois amigos, quando vimos uns vultos brancos e enormes pousados numa árvore seca no meio do pasto, eram urubus-rei (Sarcorhamphus papa). Eu que estava dirigindo esqueci então de continuar olhando para frente, só tomei consciência disso quando caímos com o carro numa pequena valeta que havia entre a estrada e a cerca. Primeiro fizemos as fotos, depois tiramos o carro!!!

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Gavião-pega-macaco

A primeira harpia a gente nunca esquece, ainda mais quando ela passa a poucos metros da nossa cabeça. A comemoração foi tamanha que pensaram que algo sério teria acontecido comigo e com o Gabriel Leite (que também estava no evento do urubu-rei). Aliás, as grandes aves de rapina são sempre muito orgásticas. Numa saída com o pessoal do COAVAP vi pela primeira vez o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) pousado, assim que bati o binóculo na ave saiu um palavrão comemorativo muito espontâneo e alto, que fez a ave sair voando e me deixou bastante constrangido por eu ter espantado a ave. Felizmente ele voltou a pousar num local tão bom quanto o primeiro, permitindo que todos fizessem boa foto!!!

Para os casos mais atuais, escutei o canto da anhuma (Anhima cornuta) no Vale do Paraíba, em Taubaté, numa outra passarinhada com o pessoal do COAVAP. Conhecia muito bem essa espécie de Tocantins e Mato Grosso e quando escutei seu canto nem fiz questão, imaginando que era algum dos observadores do COA brincando com o playback. Porém era mesmo a ave, ali, no “nosso quintal”, toda linda se exibindo no parque da cidade!

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Anhuma

Pra fechar esse texto que poderia ser muito maior (já que sofro de ejaculação precoce quando o assunto é aves), só mais dois casos recentes de encontros emocionantes com aves. Estava em um trabalho nas matas próximas a cidade de Presidente Figueiredo, no Amazonas, quando um grupo enorme de queixada (Tayassu pecari) passava nas proximidades. Eu e meu amigo Guilherme Brito (mais conhecido como Lama) resolvemos tocar o canto do jacu-estalo-de-asa-vermelha (Neomorphus rufipennis), que segundo relatos costuma seguir esses animais nas matas (assim como fazem outros jacus-estalos). Logo após pausar o playback obtivemos a resposta imediata da ave…o coração foi parar na boca, as mãos ficaram suadas, ficamos inquietos sem saber o que fazer. Tocamos mais algumas vezes seu chamado, porém sem nunca obtermos a segunda resposta!

Pra finalizar, estive com Marcelo Barreiros e Gabriel Leite em Canudos, na Bahia, em novembro de 2012. Foi uma das maiores experiências da minha vida (e creio que quem já viveu isso vá concordar comigo)! Ver ao amanhecer cerca de 500 araras-azuis-de-Lear (Anodorhynchus leari) passarem voando a poucos metros de sua cabeça com aqueles gritos estridentes que ecoam nos vales esculpidos pelo vento e pela água em enormes cânions e ser guiado pelo filho da pessoa que guiou os ornitólogos que redescobriram essa espécie na natureza, é de emocionar e causar incontáveis orgasmos em qualquer pessoa que, aprecie os espetáculos da natureza, as aves e da história da ornitologia de nosso país!!!

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Arara-azul-de-lear

 

 

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