Inspirada no Elimination Dance do Michael Ondaatje, um dos meus escritores e poetas favoritos

Uma coletânea de situações vividas ou ouvidas

  1. Os que, ao andar pra trás enquanto olhavam pra cima pra fotografar o rabo-mole-da-serra caíram numa vala de 2m com pedras — mas só tomaram um roxo na perna e, o mais importante, sem um arranhão pra câmera.
  2. Quem já caiu em vala, barranco, riacho, e sabe que o primeiro reflexo é levantar os braços e salvar a câmera, não importa o quê.
  3. Os que tentaram aplicar a avançada técnica de jogar um pedaço de pão perto da garça-da-mata, para assim atrair peixes e poder fotografá-la pescando, mas quase acertaram o pão na ave (que se abaixou a tempo) e só viram o pão afundar inutilmente.
  4. Aqueles que, na ansiedade de fotografar ave de rapina no céu, tentaram saltar do carro sem tirar o cinto – mas não conseguiram.
  5. Quem, ao ouvir a vocalização da arara-azul, e sem saber que ela era comum na cidadezinha, saiu desesperado pra fotografá-la – e só reparou que saiu sem se vestir, apenas de cueca, quando começou a perceber os olhares e risos das pessoas.
  6. Quem já gritou um palavrão de entusiasmo ao ver o gavião atender ao playback, com esse grito afugentou a ave, e foi xingado pelo resto do dia pelas outras pessoas do grupo.
  7. Pessoas que já se desvencilharam de abraços amorosos porque viram ou ouviram uma ave desejada e precisavam ir atrás dela.
  8. Os que sentem o estresse e a irritação aumentando, inquietação, impaciência, até que finalmente podem voltar a passarinhar, e descobrem que era só falta de birdwatching no sangue.
  9. Quem já passarinhou de dentro de um cisne de fibra de vidro gigante, a alta velocidade, dirigido por uma criança, enquanto você dá as ordens para se aproximar mais do biguá que acabou de pescar um peixão ou das andorinhas-do-rio pousadas na pilastra.
  10. Os que não se dão ao trabalho de mandar lavar o carro porque na semana que vem ou dali a três dia estará enlameado e empoeirado de novo e mesmo quando são mais dias na cidade, se acostumaram a andar com o carro sujo.
  11. Pessoas que tiveram que conversar com policiais pra explicar que aquele carro sujo e enlameado estacionado no meio da trilha tem dono, não é um carro abandonado.
  12. Quem, mesmo com o carro sujo de poeira ou de lama, sempre tem garrafas d´água, castanhas ou alguma barrinha de cereal dentro do carro.
  13. Pessoas que tiveram que fugir de tiros porque saíram pra corujar com aquelas lanternas fortes e o dono da casa achou que fossem ladrões.
  14. Os que passaram mais de 2h sentados no chão esperando uma ave voltar.
  15. Os que já se apavoraram por apalpar a perna e encontrar um carrapato e, em vez de matá-lo antes com scabim, arrancam o bicho, o ferrão fica, infecciona, e a pessoa fica três semanas com uma bola roxa na perna.
  16. Os que acharam que tinham se livrado de todos os carrapatos, até acharem um gordinho no meio do alto das costas.
  17. Pessoas que têm que jurar, várias vezes, pro namorado, namorada, marido ou esposa que já conseguiram tirar todos os carrapatos, e não há risco de ter sobrado algum que vai andar pela cama pra mudar de hospedeiro.
  18. Aqueles que ao ficar de cócoras para fotografar levaram picadas de pernilongo em partes privadas do corpo.
  19. Quem, mesmo saindo só de calça comprida e sapato fechado, sabe o que é sofrer por pernilongo, mosquito, mosquito-pólvora, aranha, formiga, um bando de formigas, formigões, abelha, carrapato, bolas de carrapatos, insetos desconhecidos, espinhos, urtiga, capim navalha.
  20. Pessoas que já sentaram em cima de formigueiro e descobriram que formigas conseguem morder por cima do tecido.
  21. Pessoas que preferem não pagar o mico de usar a meia por cima da barra da calça, e assim tiveram que tirar as calças porque as formigas subiram por dentro da calça.
  22. Pessoas que usam as meias por cima da barra da calça, mas esquecem de checar se o zíper da calça-bermuda está totalmente fechado, e assim também sofrem invasão de pelo menos uma formiga, que mesmo sendo só uma pode fazer muito estrago.
  23. Os que nunca saem pra um passeio sem protetor solar, repelente, chapéu, garrafa d´água, barrinha de cereal, calça comprida e sapato fechado e, claro, a câmera.
  24. Os que já tiveram um piriri no meio do passeio e decidem acrescentar papel-higiênico ao kit básico.
  25. Pessoas que adoram o litoral mas raramente colocam os pés na areia ou, se colocam, estão de calça comprida e sapato fechado.
  26. Pessoas que descobriram que dá pra fazer uma passarinhada light na praia, de shorts, chinelo e câmera, desde que seja bem light.
  27. Os que já tiveram que explicar pros colegas de trabalho que aquele círculo estranho em volta do olho esquerdo é onde a câmera encosta quando você fotografa, e se você passa uns dias com o rosto suado e com a câmera no rosto, a pele pode reagir com uma irritação.
  28. Pessoas que escolhem frio congelante, poeira nos olhos ou cabelo totalmente embaraçado, pra que não seja preciso perder tempo abaixando o vidro do carro caso uma ave apareça.
  29. Os que descobrem que têm três botas de trilha e só um sapato de festa.
  30. Aqueles que, em vez de marca de biquíni ou sunga, têm a metade dos braços ou só as mãos levemente mais bronzeadas.
  31. Os que se identificam com o lema dos correios dos Estados Unidos “Nem a neve, nem o frio, nem a chuva, nem o calor e nem a escuridão da noite impedirão estes carteiros (passarinheiros) de completar suas rotas designadas”.
  32. Aqueles que bebem muito num churrasco comemorativo da passarinhada, perdem hora no dia seguinte mas ainda assim conseguem passarinhar com classe, sorrir e fazer de conta que as aves não estão cantando alto demais.
  33. Aqueles que de vez em quando tentam lembrar da época em que, podendo escolher, jamais sairiam da cama antes das 10h e a principal diversão era fazer compras, ir a restaurantes, ao cinema ou pra balada – mas ficam com a sensação de que foi em outra vida.
  34. Aqueles que nunca imaginaram que poderiam desenvolver tanta resistência a fome, calor, frio, cansaço, perrengues com insetos – e ainda assim voltar feliz todas as vezes.
  35. Os que acreditam que alguns birdwatchers desenvolveram a fotossíntese ou a capacidade de se alimentar do som das aves.
  36. Quem sai pra passarinhar às 5h e, ao parar no posto pra abastecer o carro e comprar água, topa com pessoas com olheiras tomando cerveja e fica pensando “olha só”.
  37. Pessoas que deitam às 22h, colocam o despertador pras 5h30, mas, preocupados com a possibilidade de não ouvir o despertador tocar, se veem na triste situação de acordar às 23h40, depois 0h15, 2h40, 3h30, 4h10, e só então finalmente olham pro celular, é 5h25 e podem sair da cama.
  38. Quem perdeu de 10×0 pra uma tovaca, um Synallax, uma borralhara, um macuquinho ou um ralídeo.
  39. Quem tentou ver a Tijuca atra ou alguma outra ave q-u-i-n-z-e vezes, até que um dia ela pousa tão perto que nem cabe na câmera.
  40. Os que mantém na câmera fotos da viagem pra Amazônia e, nos passeios com outros birdwatchers, tentam fazer de conta que acabaram de fotografar aquela ave colorida e diferente, não acredito que você não viu.
  41. Pessoas que já foram traídas pelos próprios equipamentos: baterias que não se recarregam sozinhas ou que fogem da câmera, cartões que lotam cedo demais ou que fogem junto com as baterias, pilhas fajutas, cabos fracotes, parafusos que se soltam da alça da câmera, cabeças de tripé rebeldes que deixam roxos os dedos, botões que rodam sozinhos e alteram o modo da câmera ou desligam o estabilizador, Ipods ou celulares suicidas que insistem em se jogar de cabeça pra baixo contra pedras.
  42. Pessoas que já foram traídas pela fragilidade da costura das suas calças e, ao abaixar pra fotografar ou esticar a perna pra sair do barco, ouviram um som odioso e tiveram que passar o resto do dia fazendo de conta que estava tudo bem.
  43. Quem já teve seu playback respondido por outro playback.
  44. Pessoas que sonharam que viam a harpia, saem correndo desesperados e felizes para fotografar, mas você aperta o botão da câmera e não acontece nada.
  45. Aqueles que não falam sozinhos, mas falam com as aves – de xingamentos a cumprimentos ou súplicas do tipo “por que você não pode ser bem comportado como um surucuá?”, pra depois se arrepender ao lembrar que se tudo fosse fácil não teria graça.
  46. Quem já viu um Picumnus cirratus passar de relance, mas a pessoa só repara no topete vermelho e quase tem um ataque cardíaco ao imaginar que pode ter visto a Calyptura cristata.
  47. Os que, ao se deparar com uma ave que não conseguem identificar na hora, sempre se entusiasmam com a possibilidade de ser um registro novo pra cidade, ou pro Estado, ou pro Brasil, ou quem sabe até uma nova descoberta para a ornitologia.
  48. Quem já presenciou um gavião-de-rabo-branco adulto sendo perseguido por um caracará e outros dois gaviões-de-rabo-branco e, ao analisar as fotos, passou dias achando que além de ser o Ás da Aviação, o perseguido também era o Rambo porque parecia carregar dois filhotes nas garras (depois reconheceu que era um filhote só, nos ângulos estranhos que um corpo morto pode assumir).
  49. Pessoas que desenvolvem relações emocionais com objetos e, ao vender uma câmera usada porque comprou uma nova, tem que esconder a lágrima e as recomendações mentais (para a câmera ou a lente) de “vá e seja feliz”.
  50. Aqueles que têm família ou namorado ou namorada que não é birdwatcher, e nas viagens com eles saem sozinhos às 6h pra pra passarinhar, voltam às 9h30 pro café da manhã, e passam o resto do dia tendo que fazer de conta que não estão morrendo de vontade de voltar pro mato.
  51. Pessoas que já ensinaram técnicas, ou que já aprenderam com um colega as técnicas de como conversar com a namorada ou o namorado a fim de obter um consentimento amigável para passarinhar – de novo. Inclui “só vou se você quiser, é você quem decide, sabe que o mais importante pra mim é você”, e também de vez em quando ser capaz de falar “neste fim de semana quero ficar só com você, nada de passarinhos” – mesmo que não seja uma declaração sincera.
  52. Aqueles que entram no carro, fazem viagens de uma semana no meio do mato com, ou dormiram na casa, ou deram abrigo pra um recém-conhecido – só porque ele também é birdwatcher.
  53. Pessoas que passam horas ou dias seguidos conversando sem parar com recém-conhecidos, só porque eles também gostam de falar de aves, câmeras e viagens.
  54. Os que já tiveram que enfrentar o ciúme e crises de ciúme, até que um dia você consegue levar o namorado ou a namorada num passeio passarinheiro e ele ou ela descobre que não existe o menor risco porque tudo que as pessoas fazem é falar de aves e olhar pra aves.
  55. Os que conseguiram vencer a nerdice inerente ao birdwatching e arrumaram um namorado ou namorada que também é birdwatcher.
    (Parece que não é comum haver casais que se conheceram passarinhando, e os poucos que ouvi falar são entre pessoas que estavam solteiras. Acho que além de em geral não haver clima pra paquera, parece que a maioria das pessoas tem cônjuges e ninguém quer perder o voto de confiança de quem deixa você passar dias enfiado no mato com outras pessoas.)
  56. Quem acha impossível não prestar atenção no movimento das aves e, se estiver numa situação grave como uma discussão de relacionamento, se obriga a se sentar de costas pra varanda.
  57. Quem já sentiu as mãos tremendo, as pernas bambas e o coração acelerado porque a ave tal apareceu, pousou baixo, no limpo e no aberto, e está deixando você se aproximar enquanto você só consegue rezar “não voa não voa não voa”.
  58. Pessoas que, após conseguirem uma foto excelente de uma espécie muito desejada, trocam high fives e abraços.
  59. Os que conheceram algum desses paraísos de aves em que a pessoa mantém bebedouros há anos, vê os beija-flores e thraupideos voando ao redor sem medo algum, e não conseguem conter as lágrimas.
  60. Os que tentam passar todos os fins de semana e férias no mato, passarinhando, e quando não estão passarinhando ficam planejando as próximas passarinhadas.
  61. Qualquer um que não consegue mais imaginar sua vida sem as aves.

 

Se você tiver algum interesse em ver o poema que me inspirou, tem um link para o original e uma tradução simplória aqui: http://claudiakomesu.club/danca-das-cadeiras-o-intervalo-de-michael-ondaatje/

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