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tiriba-de-testa-vermelha, em rua de Campos do Jordão
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gaturamo-bandeira F em rua de Campos do Jordão
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saíra-militar no quintal de um casa da Praia Vermelha, Ubatuba
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gavião-caramujeiro em lago de beira de estrada, Artur Nogueira - SP
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falcão-de-coleira, jovem, no prédio vizinho ao meu. Vila Madalena, São Paulo - SP
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beija-flor-rubi, M, no quintal casa em Campos do Jordão
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pica-pau-anão-barrado, M, na estrada de terra do Beto Perroy, Campos do Jordão
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gaturamo-rei, M, estrada de terra do Beto Perroy, Campos do Jordão
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besourinho-de-bico-vermelho, M, rua com entulhos atrás de parque aquático, Olímpia - SP
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periquito-rico, Parque Villa-Lobos, São Paulo - SP
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saí-azul, M, na Fazenda do Chocolate, em Itu - SP
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quero-queros no Parque do Lago, em Salto - SP
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caminheiro-zumbidor, e petisco, no famoso Arrozal do Marcão, em Tremembé - SP
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periquitão-maracanã em estrada rural de Campos do Jordão
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pica-pau-rei, adulto e jovem, no quintal da casa de Campos do Jordão
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papagaio-de-peito-roxo, em casal com papagaio-campeiro, no quintal da casa de Campos do Jordão
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Campos do Jordão
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Campos do Jordão
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Campos do Jordão
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Campos do Jordão
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caracará no prédio vizinho ao meu. Vila Madalena, São Paulo - SP
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maracanã-pequena no prédio vizinho ao meu. Vila Madalena, São Paulo - SP
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marreca-cricri na represa de Guarapiranga, São Paulo. De caiaque
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mergulhão-grande, com filhotinho, no Parque 9 de Julho
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canarinho em São Luiz do Paraitinga
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centenas de garças-brancas-pequenas na represa de Guarapiranga, São Paulo. De caiaque
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batuíra-de-coleira, no Parque Restingas de Bertioga - SP
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tesourão no Parque Restingas de Bertioga - SP
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corrupião no Parque do Ibirapuera - SP
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pica-pau-de-banda-branca no Parque do Ibirapuera - SP
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miudinho na altura dos olhos, no Horto de São Paulo
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jacuaçu em estrada rural de Campos do Jordão
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pica-pau-de-cabeça-amarela no Parque do Ibirapuera - SP
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gavião-de-cabeça-cinza no Parque do Carmo - SP
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gavião-miúdo no Parque do Ibirapuera - SP
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vira-pedras na Praia do Forte em Natal
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maracaná-pequena no meu prédio, no andar de cima
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Campos do Jordão
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pintassilgo adulto e filhotão, em Campos do Jordão
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Campos do Jordão
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trepadorzinho em Campos do Jordão
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Campos do Jordão
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tesourinha-da-mata perto da hípica, em Campos do Jordão
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jovem tesourinha-da-mata, acompanhando o adulto
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maria-preta-de-bico-azulado F, também nos arredores da hípica
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arapaçu-de-garganta-branca, arredores da hípica
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verdinho-coroado, Lago do Fogo, Campos do Jordão
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Campos do Jordão

 

O slowbirdwatching ao longo de alguns anos

As imagens deste post são exemplos do que tenho conseguido fotografar em intervalos de viagens com a família, ou em parques urbanos de São Paulo. Tenho o privilégio de ir bastante pra Campos do Jordão, mas não peguei fotos de passeios com guias, e sim daqueles que saí pra passear por 1h ou 2h, às vezes depois das 10h. Há fotos desde 2010, mas 60% é de 2014 pra cá.

  • Texto e fotos: Claudia Komesu

Talvez você já tenha ouvido falar do slowbirdwatching. Escrevi sobre isso uma vez, e logo tinha alguns conhecidos declarando-se slows. No Avistar do ano passado, em um pedaço da apresentação das Birding Ladies, falei sobre o tema e tive o prazer de topar com diversos olhinhos brilhantes e sorridentes na plateia, e até mesmo uma mulher que fez questão de me esperar na saída do auditório, pra me dizer “tudo o que você falou, é o que eu sinto também!”, de um jeito que quase me fez chorar.

O slowbirdwatching é a ideia de que não precisamos passarinhar motivados por uma grande lista de espécies vistas e fotografadas, a maior quantidade possível de lifers, ou as fotos mais espetaculares. Veja: você não vai desprezar ou evitar um lugar que tem muitas espécies, ou que há boas chances de você ver espécies que nunca viu. O slowbirdwatching é o simples reconhecimento de que há muita diversão e prazer, mesmo sem a adrenalina de novos lugares, novas espécies.

A busca por lifers está na essência do birdwatching, eu sei que o slow é herege. Para milhões de birders no mundo todo, passarinhar sem ficar ansioso pela quantidade de espécies que serão vistas, ou pelo aumento da sua Life List é algo que não faz sentido. Mas o birdwatching é amplo o suficiente para abraçar diversos tipos de pessoas, inclusive os que não querem colocar o sucesso do passeio numa dependência numérica ou de tais e tais objetivos.

É preciso deixar claro que não acho errado fazer grandes viagens para biomas diferentes, para a Amazonia, Caatinga. Só descobri que essa não é minha praia. Uma grande viagem é algo caro. São em geral pelo menos uns R$ 5 mil por uma semana com um grupo de mais umas três a sete pessoas e, mesmo que você já conheça todo mundo, imagine quais são as chances de tudo fluir em pura alegria, ou de volta e meia haver estresse entre essas pessoas que durante pelo menos cinco dias seguidos vão acordar às 5h e passarinhar pelas próximas 12 horas, às vezes mais, em geral com longas distâncias, calor, insetos, sem bons restaurantes, às vezes com lanches precários, poucos ou nenhum banheiro, e às vezes com corujadas no fim do dia. O mais provável é haver interesses diferentes, disposições e paciências diferentes, visões diferentes do ritmo do passeio, e você tem que ficar fazendo o balanço entre boa convivência social e o pensamento de quanto dinheiro você pagou, quão longe você está, como é improvável voltar para aquele lugar.

Em resumo: é foda.

Nem fiz tantas viagens em grupo assim, e nem sofri muito. Meus companheiros de viagem eram bem legais, mas há um estresse inerente à situação, e há as histórias que me contam de outras viagens em que as coisas não correram tão bem.

Outro motivo pra não fazer grandes viagens em busca de lifers: eu não trabalho. Ou melhor, executo tarefas que não resultam em renda, como o Virtude e outros. O Cris sempre me falou “quer parar de trabalhar e fazer só o que você gosta?”, e foi assim que me aposentei em 2011. Temos dinheiro o suficiente pra eu não precisar trabalhar, mas não a ponto de 5 mil serem dinheiro de pinga.

Minha situação é peculiar, mas o resultado é comum. Imagino que para a maioria dos birders, uma grande viagem pra Amazônia é algo ou fora do alcance, ou para ser planejado e economizado durante um bom tempo.

Acho que a maioria numérica dos birders brasileiros é do Sudeste-Sul. Tem muito o que se ver na Mata Atlântica, mas depois de dois ou três anos de atividade intensa, fica cada vez mais difícil encontrar lifers, ao mesmo tempo em que você fica no Wikiaves vendo as maravilhas da Amazônia e se sentindo meio infeliz por não ter dinheiro suficiente pra fazer várias viagens pra lá.

Essa frustração existe quando o que nos move são os lifers. Eu sei que é muito legal topar com um lifer, com uma ave que você nunca havia visto. Mais emocionante ainda é quando você nem sabe que ave é. Mas a busca por lifers não precisa ser seu único combustível.

Vou tentar descrever o jeito que tenho passarinhado nos últimos anos, e quem sabe isso lhe ajude a preencher o vazio por não poder passarinhar tanto na Amazônia, Caatinga ou Pantanal.

– Em qualquer lugar que você vá, um dia não é igual ao outro. Assim como não se entra no mesmo rio duas vezes, não se entra na mesma mata ou campo duas vezes. Isso se você estiver buscando cenas, momentos. “Você já tem esse?”, é uma pergunta que não fazia sentido pro Cris numa saída em grupo que a gente fez, e o guia perguntava. Ele me falou “Todas as fotos que ainda não fiz, eu ainda não tenho”. “Já tenho esse” só serve quando o que conta é um checked! na lista de aves já fotografadas.

– No slow seu foco não é sua Life List, então você pode desfrutar tudo que você está vendo.

– No slow seu foco não é um resultado, não existe um objetivo. O caminho, o passeio, esse já é seu prêmio. Se esse passeio vai lhe render fotos ou não, essa é outra questão.

– No slow você não precisa ficar pensando na pontuação das suas fotos no Wikiaves, na justiça ou injustiça das avaliações, no social que você precisa fazer para que comentem e pontuem suas fotos.

– O foco do slow é mais no que você viu, viveu, sentiu, e menos do que você conseguiu em termos de lifers ou fotos. E de preferência, sem preocupações com a repercussão que você conseguirá com aquelas fotos.

– Mesmo quando você vê pouca coisa, isso também faz parte do prazer do passeio. Meu atual fotógrafo de natureza favorito é Vincent Munier. Ele tem fotos de uma beleza incrível, perdeu um pedacinho do nariz porque ficou tempo demais embasbacado com a beleza da coruja-das-neves, e tem frases como esta:

Quando estou no campo, não é trabalho, é prazer. Quando não vejo nada, não tem problema. Às vezes é até o que me agrada – por ser algo difícil. Eu busco imagens simples que permitem você respirar, quero espaços amplos e abertos onde você está livre da civilização.

– De vez em quando há peregrinações para ver determinada espécies com ninho em tal lugar, ou que foi vista mais de um dia em tal lugar. No passado eu iria. Hoje não vou, a não ser que alguém tivesse me contratado para fazer fotos de tal espécie. Mas por prazer? Não tem prazer maior do que encontrar uma ave ao acaso, com seus próprios olhos, de preferência sem nem precisar do playback.

– O Cris me falou “Você acha que vai encontrar o seu próprio gavião-de-penacho”. Eu falei “sei que é improvável, quase impossível. Mas é que eu não preciso de fotos lindas do gavião-de-penacho. Eu quero é um momento especial com a ave, gavião-de-penacho ou não.

– Passarinhei bastante em parques urbanos de São Paulo em 2014, em ótimas companhias. Só não é um prazer maior porque a gente tem essas malditas restrições à fotografia, e volta e meia tem a famosa abordagem do guardinha “você tem autorização para fotografar?

– Por causa dessa restrição ridícula, que só inibe o registro e divulgação da natureza brasileira, tenho evitado passarinhar em parques ou outras unidades de conservação.

– Neste ano quero voltar a fotografar mais em Campos e em outros lugares em que se pode caminhar sem pressa, em locais em que nenhum segurança vai exigir autorização para fotografar. E quando você faz uma foto bonita, nunca vai precisar se preocupar com o uso daquela imagem.

– Agora no Carnaval em Campos do Jordão ousei até mesmo não sair em horário passarinheiro. A gente dormia tarde toda noite, eu saía 9h ou 10h, voltava às 11h30 (horário em que o Cris e o Daniel estariam saindo da cama). E mesmo assim rendeu várias fotos, inclusive algumas que entram pra minha seleção de favoritas.

– Aliás, esse é um dos truques do slow: você não precisa ter dias inteiros dedicadas à atividade de forma hardcore. Passarinhar não significa apenas fim de semana todo ou 10 dias para um lugar longe e caro. Você pode passarinhar uma manhã num parque, ou umas 2h horas numa viagem com a família. O ideal seria acordar cedo, aproveitar o horário em que estão dormindo, mas mesmo sem precisar acordar às 5h30 é possível aproveitar as aves.

– Você pode passarinhar em qualquer lugar que você vá, mesmo que o destino não pareça passarinheiro. O Central Park, em Nova York, é um hotspot, especialmente em maio, por causa da migração de warblers. Las Vegas fica numa região árida, mas há vários parques artificais, em que a água dos lagos atrai muitas aves, e também é possível ver os animais típicos da vegetação nativa.

– No Brasil é mais fácil ainda. Ao planejar sua viagem, as pesquisas e contatos pelo Wikiaves ajudam muito você a conhecer os parques e regiões boas para passarinhar em qualquer cidade.

– Nesta seleção de fotos há várias de insetos ou flores. Considero-os fascinantes. As fotos mais bonitas foram feitas com uma Nikon D800 ou D300, com a lente 105mm. Mas concordo que é um perrengue ou trocar a lente, ou carregar duas câmeras. No ano passado comprei uma Olympus TG3 (era pra fishwatching, mas a chikungunya no Caribe estragou os planos), e carrego a câmera no pulso em todos os passeios. Não tem a mesma qualidade ótica do que a Nikon, é claro, mas dá pra se divertir com insetos, flores e algo de paisagem.

Apesar de já ter visto mais de mil espécies de aves brasileiras e de outros países, faz alguns anos que não tenho mais os lifers como motivação de uma viagem. Hoje os fatores que determinam um passeio são custos, conforto, se terei paz e tranquilidade pra passarinhar sem pressa e sem pressões externas. Sem qualquer preocupação se verei espécies raras ou comuns, se verei algum lifer. Graças ao slowbirdwatching, hoje não há passeio passarinheiro que não me traga satisfação, sempre volto mais feliz e tranquila do que quando saí, e em geral há pelo menos uma foto pra me orgulhar.

Ninguém precisa abdicar da busca por lifers, ou achar que isso é errado de alguma forma. O convite é bastante simples: experimente também entrar na sintonia do slow em alguns passeios, ou então mudar de sintonia se o seu passeio hardcore não estiver rendendo o que você esperava. Passear em meio à natureza, ou mesmo estar na cidade e ter olhos pra tudo que está em volta é um grande privilégio, e não deveríamos desperdiçar nenhuma oportunidade.

Nesta semana o Guto Carvalho veio falar comigo sobre apoio ao projeto de Ciência Cidadã da Save Brasil, de criarmos o hábito de fazer listas do que vimos no passeio e cadastrar no ebird.org. No começo eu sempre tinha planilhas do que vi nos passeios, e confesso que o ebird tem rigor científico, que exige coisas como marcar no mapa, cadastrar o que você viu dia a dia, de preferência com quantidades. E algumas coisas estão em inglês, o que pode dificultar para alguns. Mas será um hábito pra incorporar aos passeios, porque o ebird compila as listas do mundo todo e assim tem um retrato da flutuação das populações de aves.

O slowbirdwatching tem tudo a ver com o bem: em só fazer passeios que te façam bem, em ter olhos pra beleza de tudo que está a sua volta e não apenas do que ganha mais pontos ou likes. Com certeza podemos acrescentar mais uma ação boa: fazer algo pelo bem da sobrevivência das aves, por meio de algo tão simples como listas daquilo que vimos num passeio. Em breve falarei mais sobre as listas do ebird.

 

 

Lado B