Li o texto da Claudia Komesu no Virtude a respeito da criação de animais silvestres em cativeiro, e tomei a liberdade de escrever, dando a minha opinião.

Papagaio-verdadeiro, livre, em pomar de uma fazenda em Aquidauana - MS

Papagaio-verdadeiro, livre, em pomar de uma fazenda em Aquidauana – MS

 

Primeiramente, quero esclarecer que sou contra a criação de animais em cativeiro. Nem cachorro ou gato eu tenho. Os únicos animais que criei em casa foram peixes de aquário e, ainda assim, os colocava num aquário bem grande, de 300 litros, para que eles não se sentissem tão presos.

Ironicamente, sou responsável pela administração dos criadores de passeriformes aqui no Amazonas, já há muitos anos, e posso dizer muita a coisa a respeito dessa atividade que, como você disse, é quase tão velha quanto a humanidade.

Do meu ponto de vista, acabar com a atividade de criar animal silvestre em cativeiro só será possível com muitas campanhas educativas, dessas que ficam décadas no ar, e só depois de muitos anos começam a mostrar resultados. Algo como aconteceu com o uso de capacete por motociclistas, ou o uso do cinto de segurança por motoristas, ou as campanhas para a diminuição do uso do cigarro. Lembro muito bem que ninguém usava capacete, ninguém usava cinto ( os carros antigos nem vinham com esse equipamento de segurança ) e quando eu era jovem todo adolescente queria fumar. A realidade mudou, principalmente por causa das campanhas educativas. Acho que no caso da criação de animais silvestres, é esse o caminho.

Mas, enquanto essa conscientização não chega, milhões de pessoas que se acham no direito de ter um animal silvestre em casa vão dar seu jeito de conseguir um. A grande maioria vai tentar conseguir um animal de forma legal. Se isso não for possível, vai conseguir de outro jeito e, nesse caso, através de um traficante. Certa ou errada, a venda de animais silvestres é uma atividade comercial e, como tal, só existe porque alguém paga. Se as pessoas parassem de pagar, não haveria quem capturasse animais pra vender. Não adianta proibir uma atividade que milhões de pessoas acham que é normal. Já conversei com ecologistas que consideram um absurdo um ser humano manter um animal preso, apenas para sua diversão, e por isso fazem pressão em Brasília para que sejam criadas leis que proíbam essa atividade. Concordo que isso é terrível com os animais mas, achar que vão acabar com a atividade proibindo-a, isso é, no mínimo, ingênuo. Drogas, armas, prostituição, tem um monte de coisa que é proibido há muito mais tempo mas as pessoas continuam consumindo.

Então, acho que o caminho se resume em duas frentes. A primeira, é fazer campanhas educativas na mídia e nas escolas, mostrando o sofrimento dos animais que são capturados para servirem de pet. Temos muitas imagens chocantes que, certamente, fariam crianças desistirem de pedir um animal pra criar, se soubessem o que acontece com eles até chegarem às suas casas.

A segunda, é proporcionar meios legais que permitam às pessoas que não pensam assim em conseguirem um animal. Os criatórios legalizados são um caminho. Ainda que possam existir fraudadores e trambiqueiros ( como, aliás, em qualquer atividade ), a existência deles permitiria que as pessoas pudessem optar em comprar do criador legal ou do traficante. Se, por força de lei, os criadores autorizados não mais pudessem exercer essa atividade, somente os traficantes ficariam com a tarefa de abastecer o mercado de pets. E é um mercado enorme. Registrados no IBAMA, existem mais de 400.000 criadores de pássaros de gaiola, em todo o Brasil. Isso significa mais de 2.000.000 de aves anilhadas, que potencialmente podem gerar filhotes legais, nascidos em cativeiro, e que abasteceriam o mercado de aves canoras. Por que impedir que esses criadores tirem filhotes e os vendam para outros criadores? Quem lucra com essa proibição? Na minha opinião, só o traficante ficaria feliz com ela. Se já é um crime manter um animal preso apenas para nossa diversão, é um crime maior ainda saber que muitos animais foram retirados da natureza e mortos para que aquele indivíduo chegasse até uma casa qualquer. Um animal fora da natureza não cumpre mais seu papel ecológico, e tanto faz se ele está morto, ou vivo numa gaiola. Para a natureza, ele não existe mais. Crime por crime, comercializar animais que nasceram em cativeiro, pelo menos não afeta a população silvestre que ainda resiste.

Aqui onde trabalho, vejo que a grande maioria dos criadores de pássaros são pessoas já de certa idade, que criam aves porque seus pais e avós criavam também, conforme você bem colocou na sua matéria. Se a próxima geração encarar essa atividade de outra forma, essa continuidade se quebra e o número de criadores começará a diminuir gradativamente, até que a atividade deixe de ser tão lucrativa quanto é hoje. Os jovens de hoje têm outras alternativas mais interessantes. Para quem quer observar uma ave cantando, é bem melhor ir até uma área preservada e ver não uma ou duas, mas dezenas de espécies diferentes cantando livremente. Felizmente, essa é outra atividade econômica que está crescendo bem mais que a criação de animais silvestres e que protege a natureza mais que qualquer outra.

Apesar da nossa legislação ambiental ser rigorosa, ela é injusta com as partes envolvidas, e dá a mesma punição tanto para o traficante quanto para o criador. Se um traficante for pego retirando aves da natureza, com armadilhas, (um curió, por exemplo ), vai tomar uma multa de 500 reais por ave. Se um morador for denunciado por criar aves ilegais em sua casa e a fiscalização o autuar, ele também receberá uma multa de 500 reais por ave. Ou seja, o cara que vai no mato, mata, retira e judia dos animais para vender, recebe a mesma pena do cidadão que cuida do animal com dedicação, e que o comprou por ignorância mais do que por qualquer outro motivo.

Quase que diariamente, pessoas chegam na minha sala querendo saber como se faz pra legalizar um animal que “um amigo” deu, ou quer vender. Ou querem saber como fazer pra trazer para a cidade um filhote que foi encontrado no interior e que está lá no sítio, com um morador ribeirinho. Elas querem fazer a coisa dentro da lei, mas desconhecem que isso é proibido. Aqui na Amazônia, ainda temos uma característica regional. O número de moradores ribeirinhos é muito grande e é comum eles encontrarem animais machucados ou filhotes separados dos pais, ou ainda filhotes que caíram de ninhos, etc. Eles levam esses animais pra casa e ficam cuidando deles, no meio dos demais animais da criação. Já encontrei nessa situação macacos, psitacídeos ( em sua grande maioria ), veados, mutuns, antas, preguiças, cobras, porcos do mato, pacas, tucanos, jacarés, jacus, e até felinos. Quando esses moradores se mudam pra cidade grande, acham que podem levar alguns desses bichos.

Quando chegam clandestinamente nas cidades esses animais duram pouco tempo. Quase sempre morrem antes de completar 5 anos de idade. São atropelados, eletrocutados nos postes da rede pública, se queimam na cozinha, são atacados por cães e ainda sofrem com a alimentação inadequada. Macacos e papagaios são como crianças: adoram comer besteira. Se você der doces, salgados, chocolates, coisas condimentadas, eles vão adorar. Com o tempo, os animais ficam com a saúde debilitada e morrem. O dono do animal sofre e chora como se tivesse perdido um parente, e não entende a razão do animal ter morrido tão cedo, mesmo com o “tratamento de filho” que dedicava ao animal. Para compensar tanto sofrimento, ele volta lá pro interior e traz outro animal, para substituir o que morreu, começando todo o processo, novamente. Na maioria dos casos, os animais trazidos são filhotes. Quando ficam adultos, seus instintos mais selvagens começam a se manifestar, principalmente quando entram no cio, e aí o proprietário tenta se livrar do animal, que passa a causar muitos problemas. Ou soltam de forma irresponsável na mata, ou vão até o órgão ambiental mais próximo e entregam o animal espontaneamente. Neste caso (entrega espontânea), o dono do animal não é multado.

Eu quero chamar a atenção para a questão da ignorância, que é o maior problema a meu ver. O cidadão que retira o animal da natureza não tem noção da importância que ele tem para o ecossistema. Ainda vive naquele conceito antigo, de que existem animais úteis ( cachorro, cavalo, vaca, galinha ), e animais nocivos ( cobras, ratos, onças e jacarés ). Os nocivos podem ser mortos e exterminados, sem nenhum problema, no conceito deles. Não passa na cabeça deles que o animal tenha emoções ou possa estar sofrendo com a privação que lhe é imposta. Retiram o bicho da mata, o separam dos demais do bando, cortam-lhe as asas, prendem-no com cordas ou correntes, substituem sua alimentação natural por produtos preparados e inadequados ao consumo, e quando são acusados de maus tratos respondem que os bichos são tratados como filhos, comendo tudo que seus donos comem. E, a julgar pelo sofrimento que sentem quando o animal morre ou é retirado, dá pra acreditar que eles realmente pensam assim. Ignorância se combate com educação.

Quanto à fiscalização, esse é uma das maiores falhas em qualquer esfera. Não tem gente suficiente, não tem viaturas, não tem verba pra manutenção dos veículos e, às vezes, nem pra gasolina. Quando se fala em fiscalização em áreas afastadas, no interior da Amazônia, falamos em barcos, motores de popa, além de verbas para diárias, problemas de logística, etc. Quando se resgata um animal que estava ilegalmente em cativeiro, esse animal quase sempre não tem condições de voltar pra natureza, e precisa ser examinado por um veterinário, até mesmo para ver se não está contaminado com algum agente, que pudesse causar riscos à população silvestre. Isso implica em enviar o animal para um CETAS. Até onde eu sei, os poucos que existem estão lotados de animais ( o daqui não é exceção ). Isso sem falar no problema logístico que é transportar um animal de grande porte, ou uma quantidade grande animais, de uma localidade no interior, até um grande centro. Aqui no Amazonas isso pode significar até 8 dias de barco, sem sair do estado.

Em resumo, por princípio, sou contra criar animais silvestres em casa. Mas, dado que a atividade existe e ainda vai existir por muito tempo, penso que a melhor alternativa seria a regulamentação da atividade, e permitir a criação em cativeiro, por criadores cadastrados e autorizados. Ainda que a fiscalização seja falha, é mais fácil fiscalizar algumas centenas de criadores comerciais do que milhões de consumidores espalhados pelo país. O domínio das técnicas de criação e reprodução em cativeiro fariam os preços desses animais diminuírem, colaborando pra acabar com o tráfico, devido à competitividade do preço. Isso já acontece com aves exóticas, como o periquito australiano e as calopsitas. Por que não fazer o mesmo com araras e papagaios ? E, por último, insistir na educação ambiental, que será a solução definitiva para este problema. O dia em que passarmos a respeitar nossa fauna da forma que ela merece, não compraremos mais animais pra criar em casa, seja da loja ou seja do traficante.

Obrigado pelo espaço e grande abraço.

Robson Czaban

 

Observações de Claudia Komesu, editora da Virtude-AG. Antes de publicar o texto do Robson, trocamos uns quatro e-mails. Resumo da conversa: queria deixar claro que não sou contra a criação de animais silvestres como pets. Preferia que isso não existisse, que nenhum animal tivesse que viver enjaulado. Mas não consigo defender a Lista Zero porque me parece errado apenas baixar uma lei contra algo que é cultural, e que a meu ver só pode ser alterado ao longo de anos com muita propaganda e educação ambiental. E de onde virá essa verba, não faço ideia, porque não vejo força política ou econômica capaz de liderar uma campanha desse tipo. Pelo contrário: quem se fortalece mais e mais é a tal bacada pet e seus bilhões de reais que movimenta por ano. Digo isso porque em alguns pontos do texto do Robson podia dar a entender que eu sou a favor da Lista Zero.

Outro ponto que debatemos é a opinião do Robson de apoio aos criadores, e a ideia de que se houver mais criadores, o preço das aves legalizadas pode cair a ponto de não compensar comprar do tráfico. Eu também concordo que se o preço da oficial fosse só um pouco mais caro do a do mercado negro, as pessoas comprariam o “produto” oficial. Mas o problema, a meu ver, é o que precisa acontecer num mercado para que algo que hoje custa R$ 2.000 chegue a custar R$ 300 (um filhote de papagaio-verdadeiro, por exemplo). Expansão do mercado, propaganda, mais pessoas que não sabem ou não são capazes de cuidar de um animal comprando no impulso, ou ganhando de presente. Mais demanda pro tráfico, mais animais maltratados ou abandonados.

Tenho muito medo da lógica do lucro, da imoralidade dos comerciantes. Por enquanto a consciência cultural geral parece pender a favor da fauna: no Brasil a caça não é praticada como atividade corriqueira como era há 40 anos. Os jovens têm mais opções de lazer, o mundo é mais cosmopolita, manter um bicho enjaulado parece ser algo do passado. Mas e se o mercado pet injetar dinheiro em campanhas para convencer as pessoas jovens que ter um pet silvestre é super-legal, e que você está contribuindo para salvar uma espécie da extinção? (é o argumento de muitos criadores. Eles acham que um bicho enjaulado está a salvo da extinção, não têm a menor consciência de cadeia ecológica).

Não quero brigar com os criadores estabelecidos, tradicionais, e que cumprem a lei. Mas não apoiaria nenhuma atividade de expansão, como o aumento da lista ou o incentivo a formação de mais criadouros.

Mas esta é só a minha opinião. Sei que o Robson tem muito mais experiências diretas… mas eu trabalhei numa consultoria econômica, e vejo o tempo todo o poder do dinheiro agindo para gerar mais dinheiro aos seus donos, não importa o preço que o mundo, pessoas e animais tenham que pagar.

 

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