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a simpática Pousada Primavera, com bastante área verde
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num momento tranquilo. Nos momentos de bloco, é um mar de gente
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Logo após a ponte, recomendo
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tem artesanato, e às vezes há aves bonitas
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Aves que compramos nessa lojinha

 

  • Texto e fotos: Claudia Komesu. Nikon D800 e Sigma 50-500 VR, e celular.
  • Fotos feitas em março de 2014, na cidade de São Luiz do Paraitinga

Quase todo birdwatcher já ouviu da família os queixumes de que passamos mais tempo com os passarinhos do que com eles, que a gente só pensa em ver passarinho, e por que você tem que ir pro mato de novo.

É claro que amamos nossa família e queremos ficar com eles. Mas vício é vício. Ainda que a gente não roube pra alimentar o vício, e nem sejamos pessoas disfuncionais, o fato é que existe uma dependência química, o FPS – fator de passarinho no sangue, e você sabe do que eu estou falando: inquietação, mau humor, impaciência, tensão que de repente evaporam quando você pode, finalmente, voltar a passarinhar.

Tenho poucas situações em que preciso ponderar compromissos com a família x o birdwatching. Meus pais e irmãos moram em outras cidades e estão acostumados a passar meses sem me ver. Não tenho filhos. Meu marido é um poço de compreensão, sempre foi, e agora tem o vício dele – o poker, e acho que até gosta quando falo que estou pensando em passarinhar num fim de semana, e ele pode ir pro H2 sem precisar negociar comigo.

Mas tenho um enteado muito querido, que pra minha sorte também gosta muito de mim, e por ele tenho que ser menos junkie. Faço de tudo pra sempre estar em São Paulo nos dias em que estamos com ele, quando vamos pra Campos do Jordão até levo a câmera, mas o foco é ficar com ele.

Nas viagens com a família, em geral há um intervalo que nos permite acalmar as bichas: das 6h às 9h (ou 10h, ou 11h, depende do horário que sua família costuma acordar). Não costumo acordar cedinho quando viajo com a família, pra poder aproveitar o dia todo e o início da madrugada com eles. Mas 8h, ou 8h30 ainda é um bom horário para passarinhar, e nesse carnaval não foi diferente. Com pés de lã e muito cuidado para não esbarrar o equipamento em nada, saía do quarto em direção à luz do dia.

Estávamos em São Luiz do Paraitinga, cidade famosa pelo carnaval de rua e por ser a cidade da gloriosa Guainumbi, uma RPPN excelente pro birdwatching. Mas a Guainumbi não era opção de passeio, e eu nem precisava de nada tão especial. Só queria ver uns passarinhos.

E havia muitos. Na rua da Pousada Primavera, diversas goiabeiras com frutas maduras, e algo que pareciam aroeiras com os frutos ainda verdes. A Primavera tem um jardim grande e bem cuidado, com um suprimento permanente de frutas pregadas numa árvore. Uma população de pardais, sanhaçus, e algumas corruíras ficavam sempre por lá.

Fiz breves passeios nos três dias que ficamos lá, sempre de manhã, mais ou menos das 9h às 10h30. Nesses três dias me diverti bastante observado o grupo dos pardais, e também canários-da-terra-verdadeiros, bem-te-vi, neinei, bentevizinho-de-penacho-vermelho comendo frutinhas, um lindo casal de saí-canário, saíra-amarela, saí-azul, tuins, pica-pau-anão-barrado e pica-pau-de-cabeça-amarela (mas que não deram chance pra foto), pica-pau-do-campo, andorinha-serradora, bico-de-lacre, sanhaçu-do-coqueiro, sanhaçu-cinzento, joão-de-barro, sabiá-laranjeira, sabiá-do-campo, gavião-carijó, beija-flor-tesoura, beija-flor-de-peito-azul, besourinho-de-bico-vermelho, piolhinho, pipira-vermelha, vira-bosta, viuvinha, coleirinho, bigodinho, suiriri-pequeno, piolhinho, maria-faceira, cambacica, rolinha, bico-chato-de-orelha-preta, alguma elaenia que não consegui identificar, saracura-do-mato, caracará, urubu. Mais de 40 espécies numa área rural-urbana com umas árvores frutíferas, começando depois das 9h, sem playback, apenas na beira da estrada e no jardim.

Só espécies comuns, mas o bom de ser adepta do slow birdwatching é poder se divertir em qualquer lugar, sem precisar de aves raras, simplesmente aproveitando o grande prazer de caminhar devagar prestando atenção nos sons e movimentos e podendo parar por muito tempo para observar o comportamento das aves, e às vezes até conseguir algumas fotos.

O resto do dia era com a família, nem a movimentação das aves no fim da tarde me fazia pegar a câmera de novo, afinal, quando você está com alguém, precisa estar com a pessoa, certo? É muito menos uma questão de quantidade de horas, e mais da qualidade e da intensidade.

Sei que a maioria das pessoas não tem tantas brechas como eu, então aqui vai uma dica feminina: compense. Se você tem que negociar o tempo que sai pra passarinhar, valorize os momentos em que está com a família. E seja capaz de falar sinceramente coisas como “nesse fim de semana não quero ver passarinhos, quero ficar só com vocês”. Fale com sinceridade, e aja de acordo, sem ficar sonhando com o passeio que não pode fazer. Assim dá pra passarinhar sem ficar com remorso de não estar com a família, e diminui  muito a chance deles pegarem implicância com o birdwatching.

Como viciados, às vezes agimos como se o birdwatching fosse a coisa mais importante da vida, mas é claro que não é. Nada é tão importante como as pessoas que a gente ama, e nunca deixe eles terem dúvidas sobre isso.