Este não é um texto científico. São algumas informações que podem nos ajudar em uma reflexão sobre nossa capacidade de sermos pessoas melhores.

Casal de jandaias-verdadeiras (Aratinga jandaya) em Abreulândia - TO

Casal de jandaias-verdadeiras (Aratinga jandaya). Livres em Abreulândia – TO. Mas é uma espécie que está dentro da Lista PET.

 

  • Texto e foto: Claudia Komesu
  • Sou editora da Virtude-AG, mas este é um texto como pessoa física, não como representante do site. Esta é minha opinião individual, os outros participantes do site não necessariamente apoiam ou concordam.

Manter animais presos é um costume tão antigo como o próprio homem. Provavelmente em primeiro lugar como fonte de alimento, mas todos os animais têm comportamentos interessantes, alguns são amigáveis, e com certeza logo surgiu a função de companhia e entretenimento.

Os antepassados dos cães e gatos domésticos eram tão fascinantes a ponto de motivarem a domesticação. Os animais exerciam funções importantes como guarda, segurança, controle de roedores, mas sem dúvida os humanos já se afeiçoavam a eles. Os gatos domésticos aparecem no antigo Egito há pelo menos 10 mil anos e eram venerados, as primeiras tentativas de cães para companhia – provavelmente descendentes de lobos, remontam há mais de 130 mil anos. O Homo sapiens tem idade estimada em 160 mil anos, então não é exagerado dizer que a ligação afetiva entre homens e animais sempre existiu.

Se a domesticação de animais é algo tão entrelaçado com a história do homem, por que ser contra os animais silvestres como pets?

 

Hoje vivemos em um cenário bem diferente de há milhares de anos. As mudanças culturais acontecem cada vez mais rápido, atualmente poucas décadas já fazem muita diferença. Veja por que uma Lista PET maior só é algo bom para os poucos que vão lucrar com o comércio, mas muito ruim para a sociedade e a natureza:

– hoje temos conhecimento suficiente para saber que todos os seres têm sua função no ecossistema. Um animal retirado da natureza deixa de cumprir seu papel como dispersor de sementes, polinizador, predador ou presa, controle de pragas, reprodutor. Na Mata Atlântica, 90% das espécies de plantas dependem dos animais para dispersão e germinação de suas sementes. “‘O açaí e a castanha que comemos foram plantados por bichos, assim como o pinhão. Uma gralha azul é capaz de plantar mais de mil pinheiros de araucária por hectare e 90% das sementes ingeridas pelo jabuti se tornam propícias à germinação. Cada animal retirado é um jardineiro a menos na natureza’ – Airton de Grande, analista ambiental do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). De Grande aponta, ainda, que a falta desses animais pode acarretar problemas econômicos no abastecimento hídrico, pragas na agricultura, falta de matéria-prima para o extrativismo”.  (1)

(1) http://www.terradagente.com.br/biblioteco/NOT,0,0,318662,Trafico+nao+compre.aspx

– algumas pessoas têm a ilusão de que um animal enjaulado está salvo da extinção. Essa é uma visão bastante equivocada. Um animal cativo tem os genes daquela espécie, mas depois de muito tempo enjaulado, ou de algumas gerações enjaulado, esses animais dificilmente voltam a ter a chance de viverem livres. Eles não aprenderam como se alimentar sozinhos, como se proteger, como evitar perigos. A maioria não sabe mais viver num ambiente natural. Não teriam como cumprir seu papel no frágil equilíbrio ecológico do planeta, não são mais uma espécie com um papel num habitat. Esses animais tornam-se apenas exemplares de entretenimento, pesquisa científica ou meros signos da riqueza e vaidade dos seus donos.

“Do ponto de vista do comportamento, os bichos em cativeiro têm a mesma importância de um animal empalhado”, Jacques Vielliard – professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos mais importantes ornitólogos no Brasil. (2) Falecido em 2010.

(2) http://veja.abril.com.br/140201/p_080.html

– Além do desequilíbrio ecológico, o gosto por ter animais enjaulados como companhia alimenta um crime hediondo: o tráfico de animais silvestres. Só no Estado de São Paulo o Ibama apreende por ano cerca de 40 mil animais (70% aves). A estimativa da Renctas (Rede Nacional Contra o Tráfico de Animais Silvestres – a principal ONG brasileira de combate ao tráfico) é de até 38 milhões de animais retirados dos ecossistemas brasileiros, todos os anos.

– O tráfico de animais silvestres não é apenas uma ameaça à continuidade aos ambientes naturais – e, por consequência, a saúde, economia, segurança  e bem-estar do próprio homem. O tráfico é uma atividade em que os animais são tratados com crueldade, como objetos descartáveis.  Desidratados, desnutridos, amarrados, estressados, patas quebradas, dentes arrancados, olhos cegados com alfinetes quentes, entorpecidos com bebida alcóolica, aves com bolinhas de chumbo enfiadas no ânus para parecerem mansas.  Prensados em níveis absurdos – em fevereiro, o Ibama apreendeu um carro tipo sedan com 1.500 canários no porta-malas (3). Em 2011 um homem foi preso no aeroporto da Guiana Francesa tentando contrabandear beija-flores vivos encapsulados e presos em um pano ao redor da cueca (4).

(3) http://www.ibama.gov.br/noticias-ambientais/ibama-realiza-a-maior-apreensao-de-passaros-no-ano-de-2012-na-bahia-

(4) http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/inacreditavel/2011/09/27/285137-homem-e-preso-tentando-contrabandear-beija-flores-na-cueca#2

– Alguns defensores dos criadouros tentam dizer que não há relação entre o tráfico de animais e a criação de animais silvestres. Dizem que a maioria dos 330 mil criadores de aves silvestres registrados no Ibama são totalmente honestos e não cometem infrações. Ter ciência do que acontece de fato em 330 mil criadouros não é tarefa fácil – talvez até impossível, mas se não bastasse a dúvida sobre a atuação desses 330 mil cadastrados, os animais silvestres são comprados por outros meios fora os criadouros legais ou de fachada.  A Confederação Brasileira dos Criadores de Pássaros Nativos estima que haja aves em gaiola em 8 milhões de residências brasileiras, mas que apenas 1% das aves dessas 8 milhões de residências têm registro, ou seja, apenas 1% veio de um criadouro legalizado. (5)

(5) http://www.terradagente.com.br/biblioteco/NOT,0,0,270929,Passarinhos+criar+para+nao+acabar.aspx

– Os animais silvestres podem ser facilmente coletados na natureza. Há poucos fiscais, e de fato há cada vez menos verba para o Ibama fiscalizar. Na prática as penas são brandas, a maioria dos traficantes logo está de volta à ativa. Os defensores dos criadouros falam de meliantes e bandidos, mas os meliantes e bandidos são apenas um dos elos da cadeia do tráfico. Crianças, índios, ribeirinhos e residentes rurais pobres são facilmente recrutados pelos atravessadores para uma tarefa sem grandes custos, sem grandes riscos, fácil, e que significa uma renda significativa para essas pessoas. Na prática a fiscalização é impossível.

– O tráfico de animais é muito lucrativo. Um filhote de papagaio-verdadeiro é vendido pela pessoa que o coletou por cerca de R$ 30. Um filhote legalizado de papagaio-verdadeiro ou de uma arara-canindé custa em torno de R$ 2.500. O mercado ilegal vende o filhote sem documentação facilmente por R$ 200. A internet facilitou muito esse comércio. Em abril de 2012 a Polícia Federal de Pernambuco apreendeu envolvidos em rinhas de canários vindos do Peru e da Bolívia. Um canário campeão podia ser vendido por R$ 100 mil. Uma rinha angariava facilmente R$ 50 mil.

http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano/grande-recife/noticia/2012/04/02/operacao-estalo-pf-no-combate-ao-trafico-de-aves-silvestres-335309.php

– Os defensores dos criadouros dizem que se houver mais incentivo a criadouros – apoio financeiro, diminuição de impostos, aumento da lista de espécies que podem ser criadas – e consequentemente mais marketing, divulgação, promoção da ideia de que ter um animal silvestre como PET é tudo de bom, haveria diminuição do tráfico. Não se sabe qual a base desse argumento. O Ibama sabe que as espécies mais apreendidas também são as mais criadas – canário-da-terra-verdadeiro, curió, sporophilas, azulão, trinca-ferro. São espécies em que há oferta oficial, mas o fato é que, desde o início da humanidade, qualquer atividade ou produto chamativo cria um mercado negro de produto pirata mais barato. Se é similar, custa 10 vezes menos, dificilmente você será punido, por que pagar mais caro?

– Há uma parcela de criadores que não contribuem para o tráfico, e muitas vezes agem como defensores da natureza , denunciando o tráfico: os criadores sérios e experientes, que criam aves selecionadas há várias gerações e não têm o menor interesse em ter uma ave silvestre misturada à sua linhagem. Principalmente criadores sérios de curiós e, aos poucos, alguns criadores de canários-da-terra.

– Infelizmente é apenas uma parcela, e o fato é que a maioria da população não consegue aceitar que capturar, aceitar ou comprar um animal roubado da natureza é uma ação que alimenta a tortura e morte de milhões de animais e causa grave desequilíbrio ecológico.

O próprio site do Clube Ornitológico dos Criadores de Aves Domésticas – COCAD tem um artigo que orienta as pessoas como domesticar aves capturadas na natureza! Em vez de alertar com destaque que é crime capturar qualquer animal silvestre. Veja o que aparece no site: “As aves capturadas na natureza também são possíveis de domesticar, no entanto trata-se de um processo longo, que poderá levar algumas semanas ou mesmo alguns meses, e nem sempre bem sucedido, pelo que deve ser persistente, muito paciente e nunca violento com a ave, caso contrário nunca a conseguirá domesticar.”

http://www.avedomestica.com.br/cocad/index.php?option=com_content&view=article&id=1449:domestiao-de-aves&catid=36:diversos&Itemid=92

– Um fórum de criadores de aves, ou um criador de aves honesto pode lhe dizer que os novatos e as pessoas que não têm um grande amor pelas aves são capazes de maltratar e matar as aves. Em alguns casos por vê-las como meros objetos, em outros por ignorância. Afinal, não é tão simples e fácil manter um PET, como os vendedores querem fazer crer. Especialmente animais silvestres, que raramente têm uma ração pronta desenvolvida especialmente para aquela espécie. É comum os animais serem mantidos em espaços pequenos demais, a ponto de atrofiar partes do corpo, não receberem a alimentação certa – algumas espécies precisam de alimentos frescos / vivos, não receberem banho de sol, ficarem estressadas por solidão, ou excesso de barulho ou de movimentação da casa. Criar aves com amor exige dedicação, tempo, disciplina, dinheiro: comida boa, limpeza das gaiolas, banho de sol, espaços adequados, remédios. Não é para qualquer um.

– Muitos criadores de aves não conseguem admitir que as gaiolas tenham qualquer relação com a diminuição das populações na natureza. Um criador pode ser honesto e só lidar com aves legalizadas, mas ele pode falar por 8 milhões de lares com aves em gaiolas? Ele pode garantir que esses milhões de pessoas não caçam aves da natureza, ainda que os dados da própria Confederação Brasileira dos Criadores de Pássaros Nativos digam o contrário, e as frequentes apreensões do Ibama (basta pesquisar no Google ou no Youtube) mostrem uma parcela do que é roubado da natureza para alimentar o mercado? É fácil colocar toda a culpa em agrotóxicos e destruição de habitat, mas um criador consciente não negaria que há vários criadores que não honram a atividade.

– A criação de aves e outros animais faz parte da cultura humana. Diferente de muitos colegas birdwatchers, eu não abomino os criadores de aves. Não gosto de ver aves em gaiolas, mas considero totalmente sem sentido chegar para uma pessoa que cria curiós há décadas, que o pai criava, o avô criava, os amigos criam, que dedica várias horas do seu dia cuidando das aves, cuja principal atividade de lazer é participar de competições e encontros com outros criadores, e dizer que tudo que ela faz está errado. Coloco-me no lugar da pessoa, e penso que xingaria e desprezaria o eco-chato que viesse me falar isso.

– Entretanto, é claro que há uma brutal diferença entre esse criador sério e dedicado – que lida apenas com aves selecionadas há gerações, que cuida dos bichos com toda a experiência e dedicação – e um novato que não sabe nem qual é o bicho de sua preferência, só possui informações superficiais de como cuidar do animal, e vê o bicho como um objeto de diversão descartável.

– O aumento da lista dos animais que podem ser criados oficialmente em cativeiro trará prejuízo inclusive aos próprios criadores que levam a atividade a sério. O aumento da lista é algo bom para quem lucra com o mercado PET como negócio econômico: mais diversidade, mais animais para mostrar, promover, fazer propaganda, atrair compradores, ração, gaiola, remédios. Mas, como qualquer PET, são poucos os compradores com conhecimento ou dispostos a se dedicar realmente aos bichos. Haverá aumento de pessoas inexperientes maltratando animais, entregando ao Ibama, soltando em locais impróprios. Haverá aumento da atividade do tráfico para suprir os interessados nesses novos animais. Haverá mais motivos para os defensores da Lista Zero dizerem que qualquer criação de animal silvestre deveria ser proibida, mais motivos para os Ibama ou o órgão que vir a controlar as anilhas ser muito rigoroso, talvez até demais.

– Quem cria animais pelo amor à raça já tem seus eleitos e sabe o quanto eventuais novatos, atraídos pelo aumento do marketing de uma expansão da Lista PET, sem conhecimento e sem se filiar a associações consolidadas há décadas, podem maltratar os animais. Curiós, azulões, trinca-ferros, canários-da-terra, se reproduzem em cativeiro e vão tendo suas características desejadas apuradas pela seleção de cruzamentos. Não é preciso expandir a lista. A expansão da lista, a propaganda, a provável atração desastrosa de uma onda de novatos sem qualquer aptidão para cuidar de animais é boa apenas para os negócios de quem vai lucrar com as vendas. Não para os animais, não para a sociedade em geral.

Todos que gostam dos animais e se importam com o equilíbrio ecológico deveriam estar do mesmo lado – não importa se são observadores de aves livres ou criadores responsáveis: defendendo os animais, lutando contra o tráfico, e se recusando a ser marionetes dos interesses de quem vê os animais como $ e objetos descartáveis.

Se pra você a relação com os animais é principalmente ♥ e não $, não apoie a expansão da Lista PET. Criação de animais silvestres não é um negócio como qualquer outro, é uma atividade que alimenta um mercado hediondo, e só deveria ser praticada por criadores sérios e responsáveis sem qualquer ligação com a cadeia do tráfico.

 

Quem tiver interesse em ler o artigo em que Dener Giovanini, coordenador geral do Renctas diz que a grande maioria dos criadores de animais silvestres são honestos e agem dentro da lei, diz que animal cativo não sofre porque já nasceu assim (como os filhos de escravos), e diz que gostaria de comprar um duende o link é este:

http://blogs.estadao.com.br/dener-giovanini/o-trafico-de-animais-silvestres-e-os-criadouros-da-fauna-brasileira/

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