A proximidade do final do ano, e o início de um novo ciclo sempre inspiram decisões e novos planos. Que tal se preparar para passear mais em 2014?

Torres_del_Paine_2007

 

  • Texto e foto: Claudia Komesu
  • Pra mim viajar é um dos melhores presentes que uma pessoa pode se dar. Neste post, algumas sugestões para passear e viajar mais.

1. Descubra por que você sai pra passarinhar

Há vários motivos possíveis, e geralmente passamos por fases. Muitas pessoas têm os lifers como combustível. Afinal, com mais de 1.800 espécies só no Brasil, desafios é o que não faltam. Outras pessoas têm como principal motivação encontrar espécies raras, ou até mesmo inéditas para o Wikiaves. Vários buscam fotos boas, bem definidas, de perto, de espécies no mínimo incomuns. Alguns querem registrar as espécies da cidade onde moram para valorizar a região.

Eu estou na fase de passarinhar ser um momento de contemplação, oportunidade de observar a natureza e os bichos. O que eu mais tenho gostado é ver cenas de comportamento, não importa se é uma espécie rara ou comum.

Seja qual for o seu motivo, defina-o para si e planeje seus passeios com base nele. Por exemplo: a Amazônia é o lugar para ter mais lifers, mas em geral as condições fotográficas são difíceis. Você tem que ir sabendo que, a não ser que tenha muita sorte, voltará com dezenas de fotos apenas de registro, e poucas muito boas. Isso não é um problema, é só uma questão de ir com a expectativa certa.

2. Considere a possibilidade de fazer uma grande viagem

Para conhecer um local novo, ou para revisitar algum lugar de que você gostou muito. Quanto antes você planejar sua viagem, menores os custos, maior a tranquilidade: tarifas mais baratas de avião, de hospedagem, possibilidade de encontrar companheiros de viagem e dividir os custos.

Mesmo que sua principal motivação seja o levantamento das espécies da sua cidade ou região, pense numa grande viagem como um presente pra você pela dedicação ao trabalho de levantamento.

Uma semana é o recomendável para uma primeira viagem.

As grandes viagens não são baratas, mas se você planejar com antecedência, consegue se organizar. Assim, em vez de fazer alguns passeios menores, você reserva esse dinheiro e tempo para a viagem maior. Os passeios de fim de semana para lugares próximos são bons, mas uma boa viagem passarinheira é inesquecível.

Sugestões de destinos (com informações no Virtude): Amazônia brasileira ou peruana, Canastra, Pantanal, Lagoa do Peixe, Uruguai, Flórida, África do Sul, Patagônia. Outra possibilidade de grande viagem: rodar de carro por vários destinos de Mata Atlântica durante umas duas semanas. Fizemos isso em 2009: Bertioga, Campos do Jordão, Itatiaia e Resende, Caxambu (o Cris tinha um parente pra visitar), e decidimos ir conhecer o Espírito Santo também – mas daí voltamos pra São Paulo e pegamos um voo.

Outra vantagem das viagens grandes é planejar e curtir por antecipação. Ver as fotos, a lista de espécies, comprar algum equipamento ou acessório novo, buscar mais informações, conversar com o eventual guia. O cansaço do dia-a-dia parece menor quando temos uma grande viagem no horizonte, mesmo que seja dali a meses.

É estranho dizer isso, mas descobri que uma semana de uma grande viagem custa em torno de seis ou sete mil (reais, dólares, ou euros, veja abaixo).

Esses valores são para viagens com um relativo grau de conforto (avião, carro próprio, guias em alguns casos), mas sem nenhum luxo e, em alguns casos, com acomodações bastante simples. No Uruguai nossos hotéis eram só um lugar pra tomar banho e dormir. Na África do Sul fazemos o esquema da classe média da África do Sul, com acomodações funcionais mas bem simples. Os valores citados são apenas uma noção e, obviamente, podem mudar.

Os valores incluem o custo do trecho aéreo saindo de São Paulo. E, como estou falando de custos totais, o custo de uma viagem de duas semanas não é o dobro (porque o trecho aéreo se dilui).

Os custos citados são para um casal ou um grupo pequeno. Em grupos de três amigos mais um guia, ou quatro amigos que não precisam de guia, os custos caem bastante.

Uma semana no Pantanal com o Geiser Trivelato seriam uns R$ 6 mil para um casal (pagamos um pouco menos porque dividimos com o João Sérgio Barros).

– Uma semana na Amazônia peruana com o Adrian Rupp custou R$ 7.000 (custo individual, e num grupo de três).

– Uma semana na Amazônia brasileira – o pessoal da Fazenda Boca da Onça estava anunciando pacotes de R$ 3.000 + R$ 1.200 a R$ 1.800 de trecho aéreo, mas tinha que ser um grupo de 6 pessoas. Acho que daria para ser um grupo menor, chegando nos R$ 6 ou 7 mil total por pessoa. O Cristalino deve sair um pouco mais caro, mas não muito mais caro.

Uma semana na África do Sul, para um casal, sai por uns US$ 6.000.

Uma semana no sul da França para um casal saiu por 6 mil euros – mas não foi uma viagem apenas passarinheira, e foi de supetão, por isso o valor mais alto.

Cinco dias no Uruguai com o Alejandro Olmos, no início de 2012, saiu por R$ 4.000 para um casal. Hoje eu estimaria uns R$ 5.000. Voltamos a passarinhar com o Alejandro em novembro de 2012, fomos até a Argentina ver a tesoura-do-campo e muitos caboclinhos, não anotei os custos, mas nada muito diferente.

Para os mais aventureiros é possível viagens mais baratas dormindo em albergues, campings, viajando de ônibus em alguns trechos em vez de avião.

 

3. Antes de fechar um passeio ou uma viagem, consiga o máximo de informações

Por exemplo, a lista de espécies de um local não deve ser a principal informação. Você pode olhar a lista, mas tem que conversar com o guia ou quem já foi para saber quais as chances de ver as espécies que lhe interessam.

Pesquise no Wikiaves, tente achar as fotos de quem fez uma viagem parecida com a que você quer fazer. Alguns lugares parecem interessantes, mas como eu estou na minha fase de valorizar mais a tranquilidade do passeio e o resultado da foto (e não a espécie), desconsidero destinos quando vejo muitas fotos com as aves longe, no escuro, no alto, na brenha.

Entre em contato com o colega no Wikiaves, diga o que você pretende fazer, o que você espera da viagem, peça uma opinião. A maioria das pessoas responde com simpatia e boa vontade.

Quanto melhor informado, mais você aproveita o passeio. Essa dica vale para guias também: tente passar o máximo possível de informações para seus clientes, especialmente adversidades e possíveis problemas. Distâncias longas entre a hospedagem e o passeio, estradas ou trilhas difíceis, insetos, problemas de infraestrutura, tudo que você souber, repasse. É melhor ter um cliente que decide não fazer o passeio antes, do que um que faz mas depois fica pensando que nunca mais vai sair com você, e que provavelmente repassará essa impressão para quem perguntar.

4. Aproveite cada oportunidade para passarinhar

Vai viajar a trabalho ou com a família? Mesmo que você só tenha algumas horas disponíveis, saia para passarinhar. Duas ou três horas de passeio de manhã cedo podem render muitas fotos.

Busque informações, pesquise no Wikiaves, peça ajuda no Facebook, por exemplo no Quero Passarinhar.

Nem sempre as aves aparecem ou colaboram, mas a gente tem que fazer a nossa parte: dormir cedo, acordar cedo, e sair a campo disposto a ter ótimos avistamentos.

5. Contrate guias ornitológicos

Há pessoas que gostam de tentar descobrir as aves sem precisar de ajuda.  Mas o fato é que, com um bom guia, você sempre verá mais aves. Um bom guia conhece o local que vai te levar, sabe onde buscar as espécies, sabe como usar o playback sem estressar a ave.  Muitos guias entendem bem de fotografia e podem ajudar na regulagem das câmeras e onde se posicionar para conseguir fotos melhores.

Mais informações sobre o serviço de guias, e lista dos guias com posts no Virtude-AG: http://virtude-ag.com/birdwatching-guias/

6. Escolha bem suas companhias

Dizem que nossa memória sobre o sabor de um alimento nunca é uma memória apenas gustativa: está sempre associada a um contexto, e por isso é comum termos pratos que a mãe ou a avó fazia que são inigualáveis.

Pra mim acontece o mesmo com as viagens passarinheiras: elas nunca são apenas o resultado das fotos. O quanto eu curto minhas fotos está diretamente ligado às lembranças das viagens.

Então, se você é sensível (ou fresca) como eu, coloque a escolha das pessoas com quem você vai passarinhar como um dos fatores determinantes de uma viagem. Escolha pessoas que você sabe que há uma afinidade de objetivos. Se for uma viagem grande, de preferência faça passeios menores com a pessoa antes de decidir. Se isso não for possível, conversem antes de fechar uma viagem, cada um fale o que espera, o que gosta e o que não gosta, e vocês se acertam antes. Sei que é trabalhoso, às vezes cansativo, mas muito pior é uma viagem em que um tem foco em conseguir o máximo de lifers, o outro quer fazer as melhores fotos, não importa a espécie. São duas posturas incompatíveis, e que podem gerar muita tensão no grupo.

Uma viagem passarinheira é uma experiência intensa, gratificante, mas muito cansativa. Você, seu guia, as outras pessoas do grupo vão passar 7 dias seguidos, das 6h às 20h ou até mais tarde, muitas vezes tendo que enfrentar o cansaço de viagens longas, estradas esburacadas, chuva, avistamentos difíceis, alimentação precária, insetos, calor, hospedagem nem sempre razoável . Em locais mais ermos pode faltar água ou luz. Pode haver alguma tensão por objetivos diferentes. Mesmo quando são os mesmos objetivos, podem ter situações de você ou o outro afugentar sem querer a ave, e ser algo importante para a pessoa.

O ideal é sempre tentar manter um clima positivo e bem humorado. Não importa o que aconteceu: a escolha é nossa entre ficar reverberando o sofrimento ou tentar curtir ao máximo a viagem.

7. Incentive-se a passarinhar mais: consiga fotos melhores

Não importa o seu objetivo, acho que qualquer um fica contente e orgulhoso quando consegue uma boa foto. Contemplar uma boa foto nos dá vontade de passear mais e mais. Aumente suas chances de conseguir fotos boas. Os principais fatores que influenciam:

1. Equipamento. É possível conseguir boas fotos com equipamentos simples, mas é muito mais fácil e frequente com equipamentos melhores. Está se apaixonando pelo birdwatching? Guarde dinheiro pra trocar de câmera, faz muita diferença.

2. Luz. Fotografia é luz. Quer foto bonita? Vá para lugares com mais luz, deixe de lado por um tempo a busca pelas difíceis. Ou alie as duas coisas: você pode fazer passeios nas trilhas, em busca das difíceis, mas nunca despreze as áreas de comedouros e bebedouros, com espécies mais comum, mas é onde você tem chances maiores de fazer fotos bonitas.

3. Conheça seu equipamento. Leia o manual, faça testes com várias regulagens, converse com pessoas que conhecem sua câmera. Às vezes uma mudança simples na regulagem pode melhorar muito o resultado.

4. Paciência e dedicação. Talvez seja o fator mais importante. A maioria das fotos boas e incríveis são feitas por pessoas que passam muitas horas passarinhando, e que têm muita paciência em observar a ave e estar pronto para o momento em que ela se espreguiça, alça voo, caça um inseto, pega uma frutinha. Brigas ou acasalamentos (fora as danças) costumam ser mais repentinos, mas a experiência ajuda a conseguir fotos em vez de borrões num momento assim.

Não espero que as pessoas ajam com os profissionais, que passam dias, semanas, meses, ou anos dedicados a uma região ou a determinada espécie.  Mas fique um pouco mais com a ave: se ela apareceu e continua por perto, observe-a e fotografe-a mais um tempo em vez de pensar “já consegui uma foto boa”, e ir embora.

A maioria das fotos de que eu mais me orgulho não foram no susto, e sim depois de um tempo observando a ave. Experimente passarinhar com menos pressa, você verá o resultado nas fotos.

8. Faça uma lista de desejos

Nossas diretrizes não são imutáveis, e não há problema em revê-las. Mas ter uma lista de desejos ajuda a tornar – qualquer coisa, mais concreta. Porque reconhecemos que é aquilo que queremos, começamos a pensar no assunto e a falar daquilo, e de repente podem surgir oportunidades para tornar seu desejo real, antes do que você imagina.

Pense nos locais que você quer conhecer, nas aves que você gostaria de ver, nas situações que você gostaria de presenciar. Escreva, guarde, releia. Mantenha-se atento a anúncios e conversas, e comece a falar com as pessoas sobre a chance de vocês fazerem tais viagens.

Conforme as conversas avançam, a possibilidade se torna mais concreta, você já passa a ter noção dos custos, pode até mudar suas escolhas: por exemplo, comprar menos roupas e sapatos, ir com menos frequência a restaurantes, guardar mais dinheiro para viajar.

O birdwatching não é uma atividade que exige viagens, é possível passarinhar apenas nos arredores da casa. Mas pra mim, viagem é uma das melhores coisas que existe, um grande investimento em si. Passarinhar nos incentiva a viajar mais. Conhecer mais lugares, pessoas, viver mais experiências, ver mais belezas. O que você viu e viveu ninguém tira de você.

Quer valorizar mais ainda a experiência? Faça um relato da viagem. Escreva sobre ela, registre dicas, roteiro, custos. Compartilhe. Imagino que você terá buscado informações antes da sua viagem. Fazer o relato, compartilhar nosso conhecimento aumenta a visibilidade e a importância do birdwatching, e também é uma forma de retribuição ao conhecimento coletivo.

 

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